Novas Viagens na Minha Terra – Série II – Capítulo 46. Por Manuela Degerine

 Um Café na Internet

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Jornadas Europeias do Património: Cerca Velha de Lisboa

 

 

          Lisboa tinha o castelo, residência das elites, com uma muralha protetora, mas resto da população, o comércio e o artesanato situavam-se no exterior, defendidos pela “Cerca Velha”, que começou a ser construída pelos romanos, evoluiu durante a época visigótica, continuou depois a ser mantida e reforçada, tanto no período árabe como após a reconquista.

 

 

 

        Quais as funções de uma cerca? Como efeito as mais óbvias são militares. Não menos importante contudo é a articulação entre interior e exterior – a criação um espaço intramuros. Por conseguinte cidade e a cerca condicionaram-se mutuamente, de tal modo que as portas da muralha prolongavam os principais eixos viários da cidade. Assim, contrariamente ao que às vezes ouvimos, Alfama não é um labirinto e, “Bãb al-Hamma”, a “Porta das Termas” que deu nome ao Bairro, situada junto aos números 17-17A da actual Rua de São João da Praça, era uma entrada do eixo este-oeste da cidade; o qual, desaparecidas as portas, mudados os nomes, continua a manter, dentro do bairro, esta função estrutural.

 

 

           Talvez alguns leitores fizessem parte dos grupos que, durante as Jornadas Europeias do Património, no dia 24 de setembro de 2011, durante quatro horas de manhã, não menos porventura durante a tarde, foram heróica e competentemente conduzidos por dois arqueólogos do Museu da Cidade – os quais nos ajudaram a decifrar os vestígios visíveis da Cerca Velha. Aqui verificamos que o edifício da fundação Ricardo Espírito Santo anexou uma torre, em seguida descemos a Rua Norberto Araújo, ladeando a Cerca Velha, além observamos na Rua de S. João da Praça, desenhado na calçada, o espaço da muralha tardo-romana, com  cinco metros de espessura, mais adiante paramos junto à Torre de S. Pedro, Turris Sancti Petri, como é designada num documento, a seguir observamos o afloramento rochoso que neste lugar serve de base à muralha, um palácio construído sobre um troço da Cerca Velha, a cavidade de uma pequena gruta ocasionalmente habitada no século VI antes de Cristo…

 

       É nesta persistência de tantos tempos no nosso presente, de tanta história nas nossas histórias quotidianas que o espaço urbano vai ganhando sentidos. Os que ali se reuniram para uma visita guiada sobre a Cerca Velha de Lisboa queriam conhecer a cidade onde nasceram, onde vivem, onde trabalham – e não ficaram desiludidos. Ganharam consciência, caso ainda não a tivessem, de que cada pedra da cidade é a nossa história, é a nossa memória – e deve ser respeitada. Compreenderam, graças ao olhar dos arqueólogos, a organização do espaço urbano. Adquiriram até o vocabulário que os ajudará, daqui em diante, a verbalizar esta experiência… Não é pouco para quatro escassas horas! Obrigada ao Museu da Cidade por nos proporcionar dias destes. Obrigada aos arqueólogos por nos oferecerem tanto tempo, engenho, profissionalismo, generosidade, capacidade de comunicação… Tanto entusiasmo. Lisboa cresceu naquelas horas. 

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