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O NOVO NACIONALISMO ECONÓMICO, 2ª PARTE: O NOVO GRANDE JOGO. Por SATYAJIT DAS.

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

The New Economic Nationalism, Part 2: The New Great Game

TERCEIRA PARTE

Satyajit Das, 13 de Setembro de 2013

(continuação)

Historicismo chinês

O modelo mercantilista chinês é também cada vez mais problemático, pois o ritmo de crescimento está a baixar, sobressaindo as suas evidentes fragilidades. A economia da China é em grande parte fechada, tornando mais fácil o seu ajustamento ao novo ambiente.

A posição política da China é determinada a partir dos problemas económicos dos seus principais parceiros comerciais. Devido aos seus níveis mais baixos de crescimento, as exportações para a Europa e para a América já não podem ser os determinantes fundamentais do crescimento chinês. A China terá que depender do seu desenvolvimento nacional para conduzir o seu processo de crescimento necessário para preservar a estabilidade social e o poder do partido comunista. Recentrando-se internamente, então esta viragem iria ajudar a China a assumir os mecanismos para alcançar o novo equilíbrio da sua economia até ai impulsionada pelas exportações e com o Estado a assumir o financiamento do investimento pela dívida, e em que o crescimento passará então a ser conduzido por um maior consumo das famílias.

A viragem económica da China pode ser provocada pela sua enorme perda de riqueza, a partir do seu envolvimento com o Ocidente.

Antes da crise financeira, os EUA compravam bens e serviços à China, financiando essas compras com a emissão de USD, denominados I-O-U-S (reconhecimento de dívidas- do inglês I owe you), com baixas taxas de juros. Cerca de USD 3,2 milhões de milhões das reservas cambiais da China são investidos, principalmente em títulos do Tesouro e outros títulos de alta qualidade emitidos em dólares americanos, Euros e Ienes.

Estes investimentos perderam parte do seu valor, através do aumento de risco de incumprimento (uma vez que as notações de risco de crédito foram diminuídas) e de deliberadas políticas que tiveram como consequência a queda do valor da moeda estrangeira contra o Rimini. As tentativas a serem feitas pelos chineses para liquidar os activos em que estavam materializadas as suas reservas cambiais resultariam em fortes quedas no valor desses mesmos títulos e numa forte subida do valor da sua moeda nacional contra as moedas relevantes e com grandes perdas exactamente pela descida do valor das moedas em que os títulos estão expressos.

A China tem-se tornado cada vez mais preocupada com a segurança e com a manutenção do valor das poupanças da economia chinesa. O ressentimento dos chineses com a destruição do valor da sua poupança está a aumentar.

Num artigo de opinião publicado em 7 de Junho de 2012 no Financial Times, Jin Liwung, Presidente do Conselho de supervisão do fundo soberano chinês China Investment Corporation, escreveu em conjunto com Key Jin, professor assistente na London School of Economics (LSE), um artigo em que respondia às críticas feitas contra a China e relativamente à reacção deste país face à crise da dívida na Europa da seguinte forma: “desde o início da crise, a China respondeu de forma positiva e firme ao apelo de apoio por parte da Europa. Mas isso significa que a China deveria ser recebida como um importante e responsável credor, não como um credor externo relegado para mais baixos níveis de prioridade no pagamento, de senioridade, em momentos de urgência. Deve ser tratada em plano de igualdade com o BCE em caso de qualquer reestruturação de dívida.”

Reduzindo o seu empenhamento a nível internacional, tal comportamento poderia levar a que a China venha a reduzir o valor do seu investimento ao longo do tempo. Isto também iria minimizar a necessidade de novos investimentos para proteger o valor dos activos existentes, libertando recursos para as necessidades internas.

Como em qualquer divórcio, ambos os parceiros – a China e os seus principais parceiros comerciais – reconhecerem cada vez mais a falta de vantagem mútua na continuação do regime existente.

Na reunião do G-20 ocorrida no mês de Julho de 2012 no México, a China deixou claro que não estaria disposta a iniciar o tipo e a escala de um blitz na concessão de empréstimos bancários, o que tinha feito depois da fase inicial da crise para impulsionar o crescimento, a nível da China e a nível global também. Com este gigante asiático indisponível tanto para tomar medidas de modo a tornar-se o consumidor de última instância, como para igualmente abrir os seus mercados para as empresas estrangeiras, os países desenvolvidos estão a aumentar a intensidade das suas críticas contra as políticas chinesas.

A China, a segunda maior economia mundial,  vê diminuir os seus ganhos no seu envolvimento com outros países e nos termos que não são os seus, ressentindo-se assim das pressões externas sobre as suas políticas económicas, sobre o valor da sua moeda, sobre as suas práticas comerciais, sobre o seu sistema político, sobre a sua política externa e ainda sobre a sua política quanto aos direitos humanos e da hipocrisia das nações desenvolvidas em lidar com uma outra grande potência.

A história chinesa é moldada por sucessivas humilhações nas suas relações com o Ocidente. O seu distanciamento económico é determinado, em parte, pelas sucessivas tensões ou conflitos nas relações entre esta e os seus parceiros comerciais.

Este país banhado pelo vale do Rio Amarelo mudou a ordem das suas prioridades para a sua segurança alimentar e de energia para poder sustentar o seu desenvolvimento, encontrando-se a construir  a sua independência alimentar e energética, através de investimento orientados para os seus fornecedores estrangeiros. Nalguns casos, esses investimentos também asseguram mercados externos para a venda de serviços e produtos chineses.

Para a China, o país mais populoso do mundo, uma inversão na sua política representa um regresso à tradicional auto-suficiência económica e um interesse limitado em comércio com o exterior. Como Robert Hart, Comissário de comércio britânico para a China no século XIX, escreveu: “[os] chineses têm a melhor comida do mundo, arroz; a melhor bebida, o chá; e a melhor roupa, peles, seda e algodão. Possuindo estas características e os seus inumeráveis apoios internos, não precisam de gastar um cêntimo noutros lugares “. O envolvimento com gweilos (uma palavra do cantonês que significa estrangeiros ou demónios estrangeiros) é a exceção, não a norma na história da China.

(continua)

Para ler a Segunda Parte deste trabalho de Satyajit Das, publicada ontem em A VIagem dos Argonautas, vá a:

http://aviagemdosargonautas.net/2013/10/04/o-novo-nacionalismo-economico-2a-parte-o-novo-grande-jogo-por-satyajit-das-2/

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