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A ESTUPIDEZ É UM CÃO FIEL – 19 – por Sérgio Madeira

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Nos capítulos anteriores – Em Abril de 2009, António Amaral, perante a ameaça de um leve acidente cardiovascular, vai, a conselho do seu médico, passar umas férias na ilha de Porto Santo. Ao fazer o seu matinal jogging pela praia, encontra o corpo de um homem morto tiro. Nos dias seguintes, as investigações decorrem. António e sua mulher, Cecília, vão conhecendo pessoas na ilha. Outro plano narrativo decorre em 1972 onde, em Moçambique, se desenrola uma operação militar contra uma aldeia suspeita de abrigar um líder da guerrilha. Consumado o massacre, eclodem as tensões entre militares e agentes da polícia política. Em Porto Santo,  sabe-se quem era o morto encontrado por António.

Capítulo dezanove

– Já se sabe quem era o morto.. – Mary falava bem português – um leve sotaque.

– O tenente não me quis dizer…

– Ora, toda a gente sabe… E Mary explicou.

Tratava-se de um tal Francisco Costa, um reformado das Forças Armadas. Um sargento, segundo se disse.  Embora oriundo do continente, beirão, viera viver para a ilha há cinco ou seis anos. Habitava uma pequena moradia que alugara no Campo de Baixo, já fora do centro da pequena povoação, uma casa rural um pouco degradada, junto da estrada. Ele próprio procedera a algumas obras de manjutenção e  reparação, rebocando e pintando paredes, reconstruindo o derruído muro, pintando os portões de ferro, revendo a instalação eléctrica e as canalizações, limpando o pequeno jardim que rodeava a casa. Era um homem pacato, educado, mas discreto, não parecendo interessado em estabelecer grandes relações de amizade, mas sim em manter um contacto civilizado com os vizinhos. Possuía hábitos rotineiros, de acordo com a opinião geral das pessoas da aldeia. Fazia sempre as suas compras num minimercado da aldeia, ia todos os dias ao café depois de almoço… Deslocava-se num pequeno motociclo, indo raramente à cidade…

À tarde, o tenente Fragoso  repetiu o que Mary dissera. Estavam no acanhado gabinete do comandante na Capitania. Além de António e de Fragoso, estava um inspector da  Judiciária que se mantinha em silêncio, fitando António  fixamente. O tenente é que fazia as despesaas da conversa:

– Pensámos primeiramente que se tratasse de um estrangeiro,  mas afinal o homem era portuguê… A Judiciária do Funchal enviara os dados biométricos para Lisboa e a resposta viera passado pouco tempo. O homem era oriundo de uma aldeia do distrito de Viseu. Estava reformado do Exército onde, há seis anos,  passara à reserva com o posto de primeiro-sargento. Viera viver para a ilha há cerca de cinco anos. Estivera primeiro umas semanas na Casa de Repouso das Forças Armadas,  no centro da cidade, e alugara depois uma pequena moradia no Campo de Baixo. Fazia as compras no minimercado da terra, cujo café frequentava também, aparecendo sobretudo depois de almoço e à noite, sobretudo se havia futebol, pois o café tinha ligação à TVCabo e transmitia as emissões da SportTV. Era educado, mas não parecia interessado em fazer amigos. Cumprimentava quando chegava e quando saía e se alguém da terra se sentava à sua mesa, não tirava os olhos do ecrã, respondendo com monossílabos ou acenos ao que lhe iam dizendo. Chamava-se Francisco. O carteiro que fazia a distribuição de correspondência sabia o nome todo: Francisco Cerqueira Costa. Ainda no domingo estivera no café à noite a ver um jogo da Liga portuguesa…

O inspector que,, quando  António entrara chegara e o tenente fizera as apresentaçõs, dissera qualquer coisa como «muito prazer», mas que depois se mantivera em silêncio, perguntou:

– Conhece o Dr. Alfredo Nunes?

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