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A ESTUPIDEZ É UM CÃO FIEL – 20 – por Sérgio Madeira

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Nos capítulos anteriores – António Amaral, ante a ameaça de um leve acidente cardiovascular, vai, a conselho do médico, passar umas férias na ilha de Porto Santo. Vida calma, comida saudável e passeios a pé. No matinal jogging pela praia, encontra o corpo de um homem morto tiro. António e sua mulher, Cecília, vão gozando a tranquilidade da ilha. Isto decorre em 2009, mas um outro plano narrativo leva-nos a 1972 quando., em Moçambique, se desenrola uma operação militar contra uma aldeia suspeita de abrigar um líder da guerrilha. Consumado o massacre, eclodem as tensões entre militares e agentes da polícia política. Em Porto Santo, sabe-se quem era o morto encontrado por António.

 

Capítulo vinte

Lourenço Marques, Agosto de 1973

Francisco sentia as folhas do Notícias tremerem-lhe nas mãos.

Na esplanada do Nicola sob as velhas acácias da Praça 7 de Março, olhava as letras confusas sem as conseguir juntar. O empregado com a bandeja encostada ao peito já lhe perguntara pela segunda vez o que desejava – ao longe, ouviu a sua voz pedir uma imperial. Vestido civilmente, projectara um fim-de-semana tranquilo, igual a tantos outros. Uma deambulação pela cidade, uma ida ao cinema…

Quando vinha a Lourenço Marques, gostava de percorrer lentamente, sem qualquer intuito de comprar fosse o que fosse,  o Mercado Vasco da Gama, com os lugares das vendedeiras de frutas gritando, chamando os passantes e as bancas exibindo o seu esplendor – papaias, maracujás, abacates, mangas, abacaxis… A exuberância das cores, os odores, os gritos das mulheres, encantavam-no. Naquela manhã, o mercado estava particularmente cheio, ruidoso, muitos turistas sul-africanos. Uma rapariga chinesa que vendia caju assado – gritou-lhe a excelência do seu produto. Foi então que sentindo uns olhos postos nele deparou na banca ao lado, emoldurada por cestos com laranjas de casca verde, com Maria, a rapariga de Xuvalu. Um fantasma saído de uma recordação que ainda lhe provocava pesadelos. Viera até à esplanada do Nicola e tentara retomar os seus hábitos dos dias de licença, lendo o jornal e bebendo uma ou duas imperiais.

As mãos tremiam-lhe ainda quando, vindo o copo de cerveja, o segurou . Tentou concentrar-se na leitura.

Viu uma sombra,  Ouviu uma voz feminina:

-Senhor. Posso sentar-me?

À sua direita, magra, esguia,  hierática, Maria olhava-o. Expectante.

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