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EDITORIAL – A guerra dos mundos

Imagem2Foi no dia 30 de Outubro de 1938, um domingo, pelas oito horas da tarde. Eram os dias da rádio – a televisão dava os primeiros passos. O locutor da cadeia CBS de Nova Iorque informou que ia ser transmitida uma versão radiofónica de A Guerra dos Mundos,  de H. G. Wells. A adaptação era obra de Howard Koch. A interpretação estaria a cargo do Mercury Theatre e de um rapaz pouco conhecido – um jovem actor chamado Orson Welles. Ocorreu, no entanto, um imprevisto – o dos ouvintes que ligaram ou sintonizaram os receptores depois do aviso – o “locutor” lia os comunicados com tal realismo que a meio da emissão, muitos milhares de pessoas que não tinham ouvido a informação inicial se convenciam de que o planeta estava a ser invadido por marcianos – telefonavam a amigos e familiares despedindo-se, reuniam-se com os vizinhos para rezar ou fugiam pelas ruas. Houve distúrbios e acidentes graves. Calcula-se que cerca de um milhão de pessoas foram afectadas pelo pânico colectivo – gente de todas as camadas sociais e de todos os níveis culturais.

E havia mesmo motivos para as pessoas se aterrorizarem. Não com a invasão dos extraterrestres, mas com a progressão dos intraterrestres – em Março de 1938, as tropas alemãs anexaram a Áustria ao III Reich, o chamado Anschluss,  Em Setembro o porto de Barcelona fora sujeito a pesado bombardeamento pela aviação fascista e Negrín anunciou a retirada das Brigadas Internacionais. Ainda em Setembro, Hitler, Mussolini, Daladier e Chamberlain, assinavam um Acordo de Munique que significa a claudicação das democracias perante uma nova ordem nazi-fascista. Em breve a barreira republicana do Ebro seria destroçada e as tropas de Franco iniciavam a ofensiva sobre a Catalunha. O ensaio geral ia chegando ao fim. A II Guerra Mundial, com o seu cortejo de horrores e as suas muitas dezenas de milhões de vítimas, estava à porta. Os marcianos não precisavam vir do exterior.

Hoje, seria mais difícil, mesmo ao génio de Orson Welles, montar uma emissão com um grau de realismo equivalente. Os tempos são outros. As tecnologias são outras. Porém, tal como em 30 de Outubro de 1938, dois mundos se enfrentam – o mundo dos poderosos e o dos explorados. Sem pânico, sem aparato, os invasores apoderam-se de tudo – até das mentes dos pobres terráqueos que quando são chamados a escolher dirigentes e governantes, escolhem sempre marcianos.

Faz hoje 75 anos que a emissão de A Guerra dos Mundos aterrorizou um milhão de pessoas. Muita coisa mudou. No entanto, a natureza humana mantém intacta a sua pulsão egoísta e cruel, a sua ancestral animalidade que divide a espécie em dois mundos.

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