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“NA MINHA FAMÍLIA OS ANIMAIS DOMÉSTICOS ERAM POBRES” – ANTONIO LOBO ANTUNES “ESMIUÇADO” NO CCB – por Clara Castilho

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Clara Castilho foi até ao Centro Cultural de Belém para assistir à homenagem prestada a António Lobo Antunes. E conta-nos como foi.

O dia estava lindo, resolvi descer até ao Centro Cultural de Belém onde esse dia, o de 27 de Outubro, seria ser dedicado a António Lobo Antunes. Mais por curiosidade do que por conhecimento do escritor, de quem só tinha lido algumas obras.

Foi estranho ver o homenageado, sentado na segunda fila, ao lado de seu irmão João, a ouvir outras pessoas falar da sua obra, com um ar que eu diria, no mínimo, fechado.

Guilherme de Oliveira Martins fez a apresentação do homenageado e dos oradores. Para ele ALA anda numa busca permanente do significado, um revelador fundamental do espírito português. Lembrou o maior economista do século XX, Keynes, quando disse que devemos garantir que a economia siga no banco de trás do automóvel da história.  Por contraponto, António Lobo Antunes ensina-nos que no banco da frente tem estar o humanismo.

As apresentações que ouvi – de Maria Alzira Seixo, Ana Paula Arnaut, Norberto do Vale Cardoso e Agripina Carriço Vieira – foram densas e difíceis de sintetizar. As suas reflexões estão publicadas, para quem se interesse.

Diverti-me muito com a leitura de partes da obra de ALA em que ele ironiza com a sua família e a relação com a igreja católica. Sobretudo porque estamos num momento social em que voltamos a ver os “pobrezinhos” na rua:

 “Na minha família os animais domésticos não eram cães nem gatos nem pássaros; na minha família os animais domésticos eram pobres. Cada uma das minhas tias tinha o seu pobre, pessoal e intransmissível, que vinha a casa dos meus avós uma vez por semana buscar, com um sorriso agradecido, a ração de roupa e comida.

Os pobres, para além de serem obviamente pobres (de preferência descalços, para poderem ser calçados pelos donos; de preferência rotos, para poderem vestir camisas velhas que se salvavam, desse modo, de um destino natural de esfregões; de preferência doentes a fim de receberem uma embalagem de aspirina), deviam possuir outras características imprescindíveis: irem à missa, baptizarem os filhos, não andarem bêbedos, e sobretudo, manterem-se orgulhosamente fiéis a quem pertenciam”.

Maria Alzira Seixas lembrou que ALA disse várias vezes que gostaria de inventar uma nova forma de escrever, uma nova forma de arrumar as palavras. E que afirmara: “Quando lemos um bom escritor é para nos conhecermos a nós mesmos”. Se assim é, ele coloca-se na posição de poder ajudar-nos nesse caminho.

Num momento de “rêverie” imaginei ALA a desligar do que ouvia e a ter vontade de um convívio terra-a-terrra com alguns amigos, Como aqueles em que surgiam os projectos de canções como esta, em que escreveu o poema:

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