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CELEBRANDO VINICIUS DE MORAES – 11 – por Álvaro José Ferreira

Nota prévia:

Para ouvir os poemas de Vinicius de Moraes (os recitados e os cantados), há que aceder à página

CARTA AO TOM 74

Poema: Vinicius de Moraes
Música: Toquinho (Antônio Pecci Filho)
Intérpretes: Vinicius de Moraes*, Toquinho e Quarteto em Cy (in LP “Vinicius & Toquinho”, Philips, 1974, reed. Universal, 2001)

[instrumental]

Rua Nascimento Silva, 107
Você ensinando p’ra Elizete
As canções de “Canção do Amor Demais”
Lembra que tempo feliz
Ah, que saudade
Ipanema era só felicidade
Era como se o amor doesse em paz

Nossa famosa garota nem sabia
A que ponto a cidade turvaria
Esse Rio de amor que se perdeu
Mesmo a tristeza da gente era mais bela
E além disso se via da janela
Um cantinho de céu e o Redentor

É, meu amigo, só resta uma certeza
É preciso acabar com essa tristeza
E preciso inventar de novo o amor

Rua Nascimento Silva, 107
Você ensinando p’ra Elizete
As canções de “Canção do Amor Demais”
Lembra que tempo feliz
Ah, que saudade
Ipanema era só felicidade
Era como se o amor doesse em paz

Nossa famosa garota nem sabia
A que ponto a cidade turvaria
Esse Rio de amor que se perdeu
Mesmo a tristeza da gente era mais bela
E além disso se via da janela
Um cantinho de céu e o Redentor

É, meu amigo, só resta uma certeza
É preciso acabar com essa tristeza
E preciso inventar de novo o amor

* Arranjos – Edu Lobo, Francis Hime e Zé Roberto
Produção – Paulinho Tapajós
Técnico de gravação – Orlando Costa-Luigi

SAMBA DA BENÇÃO

Poema: Vinicius de Moraes
Música: Baden Powell
Intérprete: Vinicius de Moraes* (in LP “Vinicius & Odette Lara”, Elenco, 1963, reed. Universal, 2001, 2004)

É melhor ser alegre que ser triste
Alegria é a melhor coisa que existe
É assim como a luz no coração
Mas p’ra fazer um samba com beleza
É preciso um bocado de tristeza
É preciso um bocado de tristeza
Senão não se faz um samba, não

Senão é como amar uma mulher só linda
E daí? Uma mulher tem que ter
Qualquer coisa além de beleza
Qualquer coisa de triste
Qualquer coisa que chora
Qualquer coisa que sente saudade
Um molejo de amor machucado
Uma beleza que vem da tristeza
De se saber mulher
Feita apenas para amar
Para sofrer pelo seu amor
E para ser só perdão

Fazer samba não é contar piada
Quem faz samba assim não é de nada
O bom samba é uma forma de oração
Porque o samba é a tristeza que balança
E a tristeza tem sempre uma esperança
A tristeza tem sempre uma esperança
De um dia não ser mais triste, não

Feito essa gente que anda por aí
Brincando com a vida
Cuidado, companheiro!
A vida é p’ra valer
E não se engane, não, tem uma só
Duas mesmo que é bom
Ninguém vai me dizer que tem
Sem provar muito bem provado
Com certidão passada em cartório do céu
E assinado em baixo: Deus
E com firma reconhecida!
A vida não é de brincadeira, amigo
A vida é a arte do encontro
Embora haja tanto desencontro pela vida
Há sempre uma mulher à sua espera
Com os olhos cheios de carinho
E as mãos cheias de perdão
Ponha um pouco de amor na sua vida
Como no seu samba

Ponha um pouco de amor numa cadência
E vai ver que ninguém no mundo vence
A beleza que tem num samba, não
Porque o samba nasceu lá na Bahia
E se hoje ele é branco na poesia
Se hoje ele é branco na poesia
Ele é negro demais no coração

Eu, por exemplo, o capitão-do-mato
Vinicius de Moraes
Poeta e diplomata
O branco mais preto do Brasil
Na linha directa de Xangô, saravá!
A bênção, Senhora
A maior ialorixá da Bahia
Terra de Caymmi e João Gilberto
A bênção, Pixinguinha
Tu que choraste na flauta
Todas as minhas mágoas de amor
A bênção, Sinhô, a bênção, Cartola
A bênção, Ismael Silva
Sua bênção, Heitor dos Prazeres
A bênção, Nelson Cavaquinho
A bênção, Geraldo Pereira
A bênção, meu bom Cyro Monteiro
Você, sobrinho de Nonô
A bênção, Noel, sua bênção, Ary
A bênção, todos os grandes
Sambistas do meu Brasil
Branco, preto, mulato
Lindo como a pele macia de Oxum
A bênção, maestro Antônio Carlos Jobim
Parceiro e amigo querido
Que já viajaste tantas canções comigo
E ainda há tantas a viajar
A bênção, Carlinhos Lyra
Parceirinho cem por cento
Você que une a acção ao sentimento
E ao pensamento
A bênção, a bênção, Baden Powell
Amigo novo, parceiro novo
Que fizeste esse samba comigo
A bênção, amigo
A bênção, maestro Moacyr Santos
Não és um só, és tantos
Tantos como o meu Brasil de todos os santos
Inclusive o meu São Sebastião
Saravá! A bênção, que eu vou partir
Eu vou ter que dizer adeus

Ponha um pouco de amor numa cadência
E vai ver que ninguém no mundo vence
A beleza que tem num samba, não
Porque o samba nasceu lá na Bahia
E se hoje ele é branco na poesia
Se hoje ele é branco na poesia
Ele é negro demais no coração

Porque o samba nasceu lá na Bahia
E se hoje ele é branco na poesia
Se hoje ele é branco na poesia
Ele é negro demais no coração
Ele é negro demais no coração
Ele é negro demais no coração

* Arranjos e regência – Moacyr Santos
Produção e direcção – Aloysio de Oliveira
Assistente da direcção artística – José Delphino Filho
Gerente de produção – Peter Keller
Gravado no Estúdio Rio Som, Rio de Janeiro, em 1963
Engenheiro de som – Norman Sternberg
Técnico de gravação – Norman Sternberg

TESTAMENTO

Poema: Vinicius de Moraes
Música: Toquinho (Antônio Pecci Filho) Intérpretes: Toquinho e Vinicius de Moraes* (in LP “Toquinho e Vinicius”, Discos RGE, 1971, Random, 1993, reed. Universal, 2001)

[instrumental]

Você que só ganha p’ra juntar
O que é que há, diz pra mim, o que é que há?
Você vai ver um dia
Em que fria você vai entrar

Por cima uma laje
Em baixo a escuridão
É fogo, irmão! É fogo, irmão!

Por cima uma laje
Em baixo a escuridão
É fogo, irmão! É fogo, irmão!

Pois é, amigo, como se dizia antigamente, o buraco é mais em baixo… E você com todo o seu baú, vai ficar por lá na mais total solidão, pensando à beça que não levou nada do que juntou: só seu terno de cerimónia. Que fossa, hein, meu chapa, que fossa…

Você que não pára p’ra pensar
Que o tempo é curto e não pára de passar
Você vai ver um dia, que remorso!
Como é bom parar

Ver um sol se pôr
Ou ver um sol raiar
E desligar, e desligar

Ver um sol se pôr
Ou ver um sol raiar
E desligar, e desligar

Mas você, que esperança… Bolsa, títulos, capital de giro, public relations (e tome gravata!), protocolos, comendas, caviar, champanhe (e tome gravata!), o amor sem paixão, o corpo sem alma, o pensamento sem espírito (e tome gravata!) e lá um belo dia, o enfarte; ou, pior ainda, o psiquiatra…

Você que só faz usufruir
E tem mulher p’ra usar ou p’ra exibir
Você vai ver um dia
Em que toca você foi bulir!

A mulher foi feita
P’ra o amor e p’ra o perdão
Cai nessa não, cai nessa não!

A mulher foi feita
P’ra o amor e p’ra o perdão
Cai nessa não, cai nessa não!

Você, por exemplo, está aí com a boneca do seu lado, linda e chiquérrima, crente que é o amo e senhor do material. E é aí que o distinto está muitíssimo enganado. O mais das vezes ela anda longe, perdida num mundo lírico e confuso, cheio de canções, aventura e magia. E você nem sequer toca a sua alma. É, as mulheres são muito estranhas, muito estranhas…

Você que não gosta de gostar
P’ra não sofrer, não sorrir e não chorar
Você vai ver um dia
Em que fria você vai entrar!

Por cima uma laje
Em baixo a escuridão
É fogo, irmão! É fogo, irmão!

Por cima uma laje
Em baixo a escuridão
É fogo, irmão! É fogo, irmão!

É fogo, irmão! É fogo, irmão!
É fogo, irmão! É fogo, irmão!
É fogo, irmão! É fogo, irmão!

* Arranjos – Briamonte
Produção – Toquinho
Coordenação – J. Shapiro
Técnico de gravação – Milton Rodrigues

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