Sentado nos degraus da escada de serviço retraça com os dentes pequenos mas vorazes a fatia de pão coberta de marmelada. É o prémio pelo trabalho de uma tarde de recados mais cinco escuditos. Às seis repousa! Vem a Aldegundes com as ancas polpudas a bambolearem por debaixo do avental e dá-lhe, naqueles seus modos atiradiços, o pão e o dinheiro.
Tonico fica a mastigar embalado pela grita dos meninos, prisioneiros dos muros dos quintais, entretidos em jogos de gente de maneiras. Aqueles pátios geométricos e encaixados uns nos outros vivem de brincadeiras inocentes praticadas com compostura: o jogo das escondidas, o da cabra cega, a roda e as canções entoadas em uníssono são o passatempo dos escravos da obediência.
Tonico imagina estes meninos de peles mimosas entre a sua gente, aquela que conhece das melhores vinhas e melhores pomares a masturbar-se atrás das moitas com a ideia posta nos prazeres das mulheres casadas. Gostaria de os apanhar, de os empurrar para a fruta do Januário que vocifera palavrões em troca de manguitos. Gostaria de os experimentar na praxe do cemitério para que se borrassem de medo ao agarrarem-se às barras de ferro do grande portão.
-Você mijou-se, seu cagarola! – assim o recebeu Biluca Teta após cumprida essa prova de coragem que lhe conferia o direito de pertencer ao grupo,. Humilhado atirou-se-lhe à pancada com a raiva das lágrimas a queimar-lhe nos olhos. Estava enxutinho, o outro poderia certificar-se apalpando-lhe a porra.
Mas cortara-as, lá isso cortara-as! Quando se viu à distância de uns quarenta passos sentiu as pernas vacilantes e o coração aos coices. Não fora o saber que a malta lhe vigiava o comportamento e teria dado costas à aventura.
Dizem que as campas à noite têm luzinhas!… – avisara Chipito, malicioso, na véspera da operação.
– A mãe do Manquinho, que é bruxa, garante que as almas passeiam doidas por entre as campas – corroborara o Vesgo com o olho são babado de gozo.
Toda esta pregação de almas do outro mundo e lobisomens eram invencionices para o atemorizar. Todavia, hesitava grudado ao chão por um receio inexplicável. Transpirava. O peito subia e descia descompassadamente e a lua, tomando-lhe o passo, agigantava a sombra do vulto projectado no chão como se fosse uma aventesma.
Os heróis ganham as condecorações de olhos fechados. É o pavor que os empurra e os transforma em patéticos exemplos de abnegação e de coragem. Assim fora Tónico, cerrando os olhos e projectando-se para diante numa corrida feita de covardia e de medo que lhe dominava o corpo acicatando-o como pontas de chicote.
– Zézinho, venha lanchar!
Aldegundes chama debruçada no parapeito da varanda. O menino abandona os companheiros com passos vagarosos. Tónico ergue-se do degrau e fixa-se nos peitos da rapariga, ali pendentes ao pôr-do-sol. Os olhos fuzilam a carne leitosa e prendem-se rubros no vale que os separa e lhes confere agressividade. Ela topa-lhe o jogo e corre-o à vassourada obrigando-o a desaparecer com o fogo nos pés.
O rapaz corre feliz liberto da arenga da dona Filomena. Atravessa a vila como se fosse pássaro, ou seta, ou foguetão, ou ambulância de sirene ligada a exigir caminho livre. Vai possuído das asas de Mercúrio, por becos e atalhos. A malta espera-o lá em cima no alto do castelo para acabarem o dia em brincadeiras compinchas: histórias, malandrices, coisas boas de quem tem ainda céu e terra para descobrir. Corre veloz por ruas de trabalho, sítios estreitos onde as vozes se cruzam de janela a janela. Vai no entusiasmo de quem sente no vento o sopro da liberdade e da alegria.
Chega e saúda. Contra o habitual os companheiros respondem com monossílabos e indiferença como se a sua presença fosse incómoda. Hoje, precisamente hoje em que viu as mamas da Aldegundes e poderia tornar-se o centro de atracção, encontra-os mudos e carregados cimo se houvesse tragédia ou desgosto do peito. Nada perguntam e nada propõem, ficando no serralho fofo apoiados nos cotovelos ou deitados de barriga para cima com as fraldas das camisas a saltarem das calças remendadas.
-Tá tudo morto?! Hoje vi as mamas à gaja! Todinhas, catano! Debruçou-se no muro da varanda e elas caídas como dois badalos. Vi-as pelo decote. São brancas e grandes. São mesmo um sonho.
A malta deixa-o falar e olha-o com um misto de indiferença mas também de curiosidade. As mamas da Aldegundes eram faladas muitas vezes e serviam para povoar muitos sonhos de masturbação. Era difícil resistir às descrições de Tonico capaz de fazer daqueles peitos uma sugestão fiel e completa.
-É sacanas, vocês não dizem nada?! Que se passa malta? Viram menino de coro ou bicha de rabear? – insiste Tomico sentando-se sobre um calhau enquanto Bento Bolinha, encostado ao tronco de um castanheiro responde-lhe sem delongas:
-Já tamos fartos da tua Aldegundes. Se ao menos um dia tivesses a coragem de lhe saltar para cima!
O outro fica varado pela observação mas refreia a jra que lhe lambe a cara fuinha pois o instinto avisa-o que um qualquer plano se esconde sobre a falsa indiferença dos amigos. Devagar, às boas, põe-se em pé mas mal se ergue surge de entre todos o grito de ataque.
– Agora!
É Biluca Teta que, vendo o pássaro a procurar pisgar-se, decide pela acção. Cai no grupo a algazarra de quantos desejam, entre gritos e correrias, laçar Tónico pelas pernas ou pelo tronco frágil. Numa finta inesperada ele rompe o círculo e ganha a vereda da casa da bruxa com as ganas do desespero a espevitarem-lhe as pernas. Rápido, derruba um corpo, outro e outro, moitas e arbustos pisados às cegas. É preciso fugir, escapar, impedir que os outros lhe ponham as mãos em cima. Alguns dos perseguidores contornam-no pelas ilhargas com o fito de lhe barrarem o caminho. Tonico sente-se encurralado, ouve a corrida dos pés cada vez mais próxima e as vozes, alegres, gritando: À amostra! À amostra!
Decidiram pôr-lhe a picha ao ar. Deste modo vingam-se das suas fanfarronadas. É um golpe de força que pretendem desferir? Uma afirmação de prepotência? O prazer de o sujeitar à humilhação?
O grupo não é um bando. De qualquer modo não consegue resistir às vantagens de domínio que o número lhe confere. A força é o poder e Tonico apercebe-se da impossibilidade de resistir pela força. Primeiro resistirá pela energia própria do seu corpo nervoso e depois pela astúcia. Mesmo que lhe rebentem as pernas, que lhe salte pela boca o coração, que as roupas se rasguem e o corpo doa de pancadas, eles não conseguirão submetê-lo. Corre, salta um socalco, uma pedra, um tronco, um tufo de verdura. A boca aberta e seca, olhar espantado, fontes a latejarem, , o suor a correr. A respiração de alguém queima-lhe as orelhas como prova evidente de perda de terreno. Esticam-se braços na ânsia de o agarrar, os gritos cantam vitória antevendo a presa dominada. Mas aquela vivacidade instantânea que opera milagres nos últimos minutos do desespero salva-o da rendição eminente. De súbito suspende a corrida, lança uma perna para o lado e um perseguidor estatela-se no chão como se fosse um saco. Lagartixa, surpreendida pela armadilha, deixa-se arrastar na queda do primeiro. A ordem é destruída e Tonico aproveita para retroceder. De pouco vale a manha e agilidade na finta pois já Bento Bolinha, vermelho pelo esforço em arrastar as banhas naquele pega-pega, barra-lhe o caminho.
-Não escapas, sacana! Agora não escapas!
Tónico, tudo à sua volta é um céu de névoa filho da raiva e do sangue que lhe atiça o corpo, dentes cerrados, punhos fechados e cai sobre o inimigo ferrando-lhe uma cabeçada que o atira por terra. Salta-lhe por cima mas a sorte é adversa ao tropeçar num ramo de madressilva que o obriga a estatelar-se no chão. Biluca Teta não desperdiça a oportunidade.
-Tá agarrado! O vitelinho selvagem já nem geme.
-À amostra, à amostra! – respondem todos com expressão impiedosa. São cruéis, ingenuamente cruéis ou cruéis mesmo fazendo o seu ensaio para a crueldade que os aguarda do outro lado da adolescência.
Na maior balbúrdia cercam a presa prostrada pelo cansaço. Seguram-na pelos pulsos e pelos tornozelos jungindo o corpo contra o solo como se as mãos fossem braçadeiras de ferro a crucificá-lo. Tonico dificulta a operação imprimindo ao corpo movimentos rápidos que irritam Olho de Boi incapaz de atinar com os botões da braguilha.
-Segurem este gajo corja de rabichos!
Exaspera-o aquela destreza que dificulta a acção e lhe diminuí a competência aos olhos dos camaradas.
-Tira-lhe o cinto, pá. É mais fácil! Bota-o de calças abaixo.
-E se em vez de dares sentenças fizesses qualquer coisa? –responde Olho de Boi intentando cumprir o conselho do companheiro. O rebelde aquieta-se como se toda a energia se tivesse extinguido. E ele resignasse da batalha. Fica como o paciente exausto de tratamentos e entregue ao fim da sua dor a qualquer preço. Mole, olhos semi-cerrados em aparente entrega, os dedos do outro procurando abrir a fivela do cinto para -melhor abrir as calças. Tem segundos para recuperar o fôlego. Um enganador sossego restaura a confiança do grupo na rendição do rebelde. Quando o primeiro botão se solta Tónico eleva a barriga, num golpe brusco, contra a face do algoz que se desequilibra; um coice às virilhas de Bolinha some-o também das garras de Lagartixa que é frágil suporte para tamanha fúria. Por instantes é o pandemónio. Tónico abandona-se por um declive no terreno e deixa rolar o corpo como se fosse um tronco. Quando os outros conseguem restabelecer a ordem já ele, adiante, de pé e nu da cintura para baixo, sacode o sexo para os companheiros seguro da vitória estampada no rosto.
– Aqui ninguém mete as mãos que seja macho! O caralho é este! Se algum de vocês tem lá em casa uma irmã boa que se queira servir…
Chipito, rendido, deixa cair a terra das mãos em concha.
A AMOSTRA – conto de António Augusto Sales

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