Tranquilas são as paisagens onde a idade não conta.
Eu falo do olhar crepuscular das feras
da noite e da gordura que segrega
a sua fidelíssima paciência
a activar o cheiro de manadas quentes.
E da indiferença das grutas
poupadas ao esforço do labor do dia.
Ou de mulheres sentadas
rezando acordos entre o gesto e o fogo.
Espírito do lago
Espírito do fogo
a labareda e a margem não dizem mais que o encontro.
(de “Hábito da Terra”)
Realizador de cinema, antropólogo, investigador da cultura popular africana (provérbios e citações) e poeta, talvez o maior representante da poesia angolana contemporânea. Obra poética: “Chão de Oferta” (1972), “A Decisão da Idade” (1976), “Exercícios de Crueldade” (1978), “Sinais misteriosos… já se vê…” (1979), “Ondula, Savana Branca” (1982), “Lavra Paralela” (1987), “Hábito da Terra” (1988), “Ordem de Esquecimento” (1997), “Observação Directa” (2000). Reuniu a sua poesia no volume “Lavra. 1972-2000” (2005).