POESIA AO AMANHECER – 327 – por Manuel Simões

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                                   RUY DUARTE DE CARVALHO

                                               ( 1941 – 2010 )

            “DESCUBRO QUE A MINHA PELE”

            Descubro que a minha pele

            já pouco guarda

            das manhãs festivas.

 

            Podia reter a brisa dos augúrios

            as palavras que o medo despojou

            até arder no germe dos murmúrios.

 

            Escolher uma paisagem de silêncio

            a súbita bravura do seu eco

            a lâmina do frio que levanta.

 

            Há tardes em que a chuva se interrompe

            para que a sombra invoque outro temor:

            só um silêncio assim podia revelar

            razões guardadas de uma voz futura.

 

            Tranquilas são as paisagens onde a idade não conta.

 

            Eu falo do olhar crepuscular das feras

            da noite e da gordura que segrega

            a sua fidelíssima paciência

            a activar o cheiro de manadas quentes.

 

            E da indiferença das grutas

            poupadas ao esforço do labor do dia.

 

            Ou de mulheres sentadas

            rezando acordos entre o gesto e o fogo.

 

            Espírito do lago

            Espírito do fogo

            a labareda e a margem não dizem mais que o encontro.

            (de “Hábito da Terra”)

Realizador de cinema, antropólogo, investigador da cultura popular africana (provérbios e citações) e poeta, talvez o maior representante da poesia angolana contemporânea. Obra poética: “Chão de Oferta” (1972), “A Decisão da Idade” (1976), “Exercícios de Crueldade” (1978), “Sinais misteriosos… já se vê…” (1979), “Ondula, Savana Branca” (1982), “Lavra Paralela” (1987), “Hábito da Terra” (1988), “Ordem de Esquecimento” (1997), “Observação Directa” (2000). Reuniu a sua poesia no volume “Lavra. 1972-2000” (2005).

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