EDITORIAL – ladrões de estrada, flibusteiros, ácaros, poetas e padeiros …
carlosloures
Hoje vamos falar de blogues. Escrevemos blogues e não blogs, pois este meio de comunicação é tão vulgar que merece um aportuguesamento – que sentido teria escrevermos phone ou telephone? Portanto, seguindo esta lógica de apropriação, devemos dizer blogar, verbo transitivo, do inglês to keep a blog. Mas queremos falar sobre o universo da blogosfera. Apreciado com um olhar crítico que não faça demasiadas concessões, é desolador.
O grande à vontade com que hoje em dia as pessoas lidam com as novas tecnologias da informação, principalmente as redes sociais, criou caminhos, abriu estradas de comunicação – o que é positivo. Mas, sempre que se abrem estradas, aparecem assaltantes a sair ao caminho dos que nelas transitam – nas estradas propriamente ditas, logo apareceram «os ladrões de estrada», nas rotas marítimas, os piratas ou flibusteiros. Com os aviões, surgiu a «pirataria do ar».
Nos caminhos da blogosfera, além dos hackers (com humor, há quem traduza por ácaros), é todo um universo de imbecilidade e de linguagem grosseira, de obscenidade arrogante, que se pavoneia pela rede. Veja-se os comentários sobre futebol, por exemplo. Pessoas incapazes de escrever uma frase, acham-se no direito de intervir, insultando quem for de opinião diferente de forma soez. Por outro lado, o desrespeito pelo direito de autor, está generalizado. Os responsáveis pela maioria dos blogues entendem que basta gostar de um texto, de um conto, de um artigo, para o publicar – e, na melhor das hipóteses, dizem de onde transcreveram.
Em A Viagem dos Argonautas temos vindo a adoptar o critério de só publicar textos dos nossos colaboradores. Quanto às transcrições, só as fazemos com a devida autorização. Como exemplo, veja-se o texto que ontem publicámos da autoria de Herberto Araújo e de Juan Pablo Cardenal, jornalistas do El País. Transcrito com expressa e amável autorização do jornal. Não queremos dar lições a ninguém – apenas entendemos que, numa sociedade que se baseia na propriedade privada, não reconhecer a quem escreve ou a quem edita o direito de decisão sobre o que produz, é subvalorizar a propriedade intelectual. Se roubar um pão é crime, por que é que roubar um texto (que demora a fazer muito mais tempo de que a produzir de uma saca cheia de pães) deve ser tolerado? O poeta não é mais nem menos do que um padeiro.
Um poema vale menos do que um pãozinho? – Bem, quer dizer, depende do poema, do pãozinho, e, sobretudo, das circunstâncias.