POESIA AO AMANHECER – 337 – por Manuel Simões
12 anos ago
FONSECA AMARAL
( 1928 – 1992 )
PASSAGEM DE NÍVEL (fragmento)
Ali a nossa Pátria mal nascia.
A água salgada, o lodo, a maresia
eram o cuspo, o barro, o olor
com que um Deus jovem e faceto,
ao mesmo tempo urbano, pastoril e marítimo
(Seria branco ou preto?)
nos moldava de todas as cores:
pila ao léu
a verter para o céu
ou prós comboios,
a provocar os mabunos,
lá do Godine,
das entranhas reluzentes
(…)
À praia do Nhike-Panze
foi um ar que lhe deu…
Joãozinho, você não venha agora
com as suas manias,
que eu bem conheço,
evocar o que não é jamais.
O aterro está muito bem assim.
Cinco chagas!,
Você pode ficar certo duma coisa:
nós só lá enterrámos a infância
mais a roupa (tão leve!)
que a envolvia.
(de “Caliban 2”)
Poeta moçambicano. Colaborou em “A Voz de Moçambique”, “O Brado Africano”, “Caliban” e “Itinerário”. Incluído na antologia “Poetas Moçambicanos” (CEI, 1962). Considerado um dos pioneiros da moderna poesia moçambicana, como reconheceu Rui Knopfli.