Site icon A Viagem dos Argonautas

Novas Viagens na Minha Terra – Série II – Capítulo 154

Criação contemporânea

Caminho à beira da estrada, passo por uma estufa, a seguir por uma casa, cheira a estrume, não reparo logo, sigo mesmo em frente… Volto atrás. À porta de algo que a princípio me parece uma garagem mas, quando me aproximo, vejo tratar-se de um armazém desarrumado, trastes ferrugentos, madeiras bichosas, garrafas de plástico, há uma cortina feita com latas de cerveja e refrigerantes: aquilo a que um artista chamaria uma instalação. Uma obra de arte.

– Bom dia…

Ninguém responde.

– Faz favor?

Os habitantes devem andar pela horta. Ou a tratar dos animais; oiço berrar. Bato com o bordão num pedaço de ferro, não prossigo enquanto não vir o criador.

– Não há ninguém em casa?!

Acaba por aparecer um homem. Explica que tem ovelhas e, no verão, quando ali se encontrava, as moscas o incomodavam até se lembrar de tapar a porta: agora as latas impedem a bicharia de entrar, não completa mas maioritariamente e, em contrapartida, deixam circular um ar refrescante. Aponta as que, com o sol e a chuva, ficaram ferrujentas e descoloridas.

– Tenho que começar a substituir algumas…

O que revela uma intenção estética. A diferença entre este homem e um artista plástico está no lugar onde expõem, aqui a cortina constitui mera solução de um problema enquanto numa galeria se transforma em metáfora da sociedade; o que lá se vende é, mais do que a obra, um discurso legitimado. (Assim tem sido de Marcel Duchamp a esta parte: há um século.) Prefiro a cortina com as moscas, os trastes, as ovelhas e a paisagem por perto, mas estou a imaginar as latas ferrujentas e descoloridas nas paredes (brancas) de um museu… Como os galeristas galegos leem regularmente as minhas crónicas, calculo que não deixem passar a oportunidade de expor este artista pouco académico. Pelo que muito me congratulo.

Exit mobile version