IV
Há criaturas que cismam desvairadamente na felicidade universal. São os chamados utopistas, que querem á viva força ver toda a gente contente. Uns fundam religiões; outros organizam soviets. Os resultados são sempre os mesmos e não vale a pena falar nisso.
Alguns procuram simplesmente a sua felicidade. Chamam-lhes egoístas. Eu cuido que são altamente asizados, bem mais que os filósofos fazedores de sistemas. Infelizmente, dos que buscam a própria felicidade, a maior parte morre sem a ter atingido e quase todos se cansam para afinal só chegarem a resultados muito incompletos e dizerem da Felicidade o que João de Deus dizia da sorte grande: – “É uma coisa que sai aos outros.”
Sei, no entanto, dum sujeito a quem caiu o prémio, como eles calham em geral: por acaso. Gastara trinta anos da sua vida a indagar onde estava a Ventura. Procurara-lhe a teoria nas doutrinas dos compêndios, buscara-lhe o exemplo na prática dos homens singelos e tanto matutara no problema que chegou a andar tresvariado. Uma bela tarde passeava agitadamente num corredor e, sempre preso à sua ideia fixa, exclamava:
– “Onde estás, Felicidade?”
– “Estou aqui”, respondeu-lhe da cozinha uma voz feminina.
Era a cozinheira, que entrara nesse dia, se chamava Felicidade, uma sua criada, e era, além de exposta da Santa Casa, um tanto bexigosa.
O pensador juntou-se com ela e foi felicíssimo.

