

I
Diz uma lenda muito conhecida que, em certo rincão do Oriente, um príncipe, poderoso entre os mais poderosos, agonizava lentamente minado por um mal misterioso, para o qual nem os físicos de ofício nem os curandeiros de ocasião conseguiam lograr remédio. Um dia, uma velha ferrugenta, que tinha no sítio fama de bruxa de toda a confiança, profetizou na praça pública que o príncipe se curaria vestindo a camisa de um homem feliz. Logo partiram emissários à busca de tal camisa e, depois de terem dado, como o barítono dos “Sinos de Corneville”, três vezes a volta ao mundo, descobriram, no alto dum monte e à sombra duma choupana humilde, um zagal que, perante um tabelião e duas testemunhas estabelecidas, não teve dúvida em declarar-se completamente feliz. Precipitaram-se sobre ele para lhe arrancarem o almejado alívio aos males do príncipe e verificaram então que o único homem feliz não tinha camisa.
Do caso, como de certos canivetes que servem também de saca-rolhas, de abotoadores, de palito, de limpa-unhas e de coça-ouvidos, podiam tirar-se vinte e sete conclusões. A que os miolos preguiçosos mais facilmente escolhem é que a Felicidade é inatingível neste mundo.
Esta história, bem mais velha que a Sé de Braga, não me teria eu dado ao incómodo de recordá-la, sobretudo depois de Anatole France a ter aproveitado para um dos seus contos de mais saborosa ironia, se ela não tivesse uma continuação que muita gente ignora e me foi contada por um oriental das minhas relações, que anda vendendo tapetes pela porta dos cafés e a recolheu dos seus maiores à míngua de outras heranças que o dispensem de importunar quem toma tranquilamente o seu aperitivo.
(continua)
