(Conclusão)
Detida por adultério, enquanto um escrevia o outro dava autênticos concertos que ecoavam na rua. Hoje, matrona forte, peito alto, andando pela casa com feios vestidos escuros, ninguém imagina aquela situação bizarra imposta por uma formosa jovem de tenaz personalidade. Exigiste piano, cama, guarda-vestidos, toucador, até a presença do teu filho e da ama. Amei-te, mas jamais descobri se foi pelas tuas formas carnais, a independência de caráter, a alegria que espalhavas com o teu riso, o prazer em humilhar o Pinheiro Alves roubando-lhe a mulher, a perversidade em provocar a burguesa sociedade portuense. O amor teve sempre comigo uma relação ambígua de proteção, sentimento e sexo. Foi exaltação e tragédia, vida e morte. Estou fatigado das trevas que me acompanharam. Não que receie o tempo que vai fechando a porta. Não há pior inferno à minha espera que o alimentado pela minha própria alma. Passa-se tudo segundo a relatividade das leis da matéria.
A cadeira de baloiço está imóvel. Perdeu a alma porque a alma de uma cadeira de baloiço resulta da cumplicidade conseguida entre o objecto e quem o utiliza. Cartas, papéis, folhas escritas, cadernos, jornais da manhã vindos do Porto, espalham, sobre uma mesa quadrada, a inutilidade da sua presença sem dono. No escoar da tarde o sol girou em redor da casa amarela. Abriu-se a greta de uma janela a fim de arejar um pouco a dor sufocante do silêncio. O pêndulo do grande relógio encostado à parede da entrada movimenta-se, indiferente, no seu ritmo compassado. Além, pendurada, a espada de copos lavrados que o amigo Vicente de Castro lhe veio oferecer, juntamente com o cobertor com que sufocou a jovem esposa, antes de partir para o degredo. Imperturbável, a morte vagueia por ali largando um aroma enjoativo.
Ana Plácido limpa-lhe suavemente o sangue do rosto onde se notam fugitivas contrações de vida. Acaricia-lhe a testa, afasta para trás os cabelos ralos diferentes da farta cabeleira negra que conheceu no baile da Assembleia. Há um rumor de andares girando como se tivessem receio de espantar a morte. Porque fizeste isto? Apesar do teu sentido trágico da vida, do azedume constante, dessa forma incontida de espalhares a fatalidade à tua volta não quebrei um instante ao teu lado. Não tinhas razão quando afirmavas que o tempo havia secado o amor em nós. Esse amor louco não podia permanecer eternamente. A primavera pode ter sido curta porque o destino foi uma estação de tempestades. O tempo não desgasta apenas os corpos mas também as emoções tornando-as menos dominadoras, mas Envelheceste sem encontrar sossego para o teu espírito insubmisso.
Aturei-te tudo: as manias, as cóleras, os sarcasmos, a pobreza, as amantes, as doenças, as fúrias de génio, o egoísmo, o jogo, a solidão, até a aventura uma paixão que misturou romance, arrebatamento, delírio, sexo, sofrimento. Mais do que tua amante ou tua mulher fui tua mãe. Convictamente fui uma figura real ao teu lado e não uma personagem de romance, por isso te conservaste comigo, sombra protetora da tua loucura.
Tens a testa fria Camilo, as mãos geladas. Tragam mais cobertores. Já quase não tem pulso. Os olhos estão cerrados, o rosto mostra a lividez do mármore e a boca a respiração sumida e rouca. Ana tem gotas de orvalho nos olhos de luto.
Porque casaste com o Pinheiro Alves esse comerciante de secos e molhados, burgesso, viciado no trabalho e ávido por dinheiro, certamente incapaz na alcova. Tiveste receio, como desamparada órfã, de ficares destinada aos braços de um amanuense qualquer. Embora longe de teres um dote cobiçado, pobre não eras. Pouco formal, sabias rir e tinhas laivos de atrevimento, pensamentos literários e ideias pouco convencionais, coisas criticáveis numa sociedade fradesca como o Porto. No íntimo invejavam a tua liberdade de espírito que acabaria por ser a desgraça da tua peregrinação. Depois, o teu corpo Respirava um sedução carnal e Para quem tinha o vício de observar os outros tornou-se impossível manter-me indiferente à tua personalidade emancipada. Condenei-te com a minha constância dada a fama de inimigo da moral que as boas famílias haviam criado a meu respeito. Apontaram-te, atacaram-te, denunciaram-te ao Pinheiro Alves, desprezaram-te. O corno amava-te verdadeiramente e o ciúme acabou por tornar-me imprudente. O meu desvario era imaginar-te nos braços dele, estares com ele, falares com ele, fazer compras com o dinheiro dele. Não me bastava que fosses minha amante. Quando se atinge este estado começa a insensatez e pratica-se a imprudência que nos condenou. Tu aguentaste a expulsão…, vergonha…, dor…, humilhação… Eu fugi…
Olho a vida com a luz crepuscular da idade. Coisas distantes, emoções cicatrizadas. As emoções são estados instantâneos retidos pela memória. Fogem, desaparecem… As dos nossos encontros resistem perante o sentimento das tuas palavras que acaloravam o meu corpo. Ai!… Como eram sedutoras as tuas palavras, vivaz a tua inteligência, sarcástico o teu sentido de humor… Perfil frágil de homem magro, muito magro, a mística palidez do rosto marcado pelas bexigas e o bigode enorme a esconder os lábios finos percorridos por uma antipática chama de ironia. Bonito não eras, porém insinuante. Cabelos negros, testa alta, sobrancelhas espessas, massa óssea concedendo à estrutura do rosto a força de um desígnio, olhos penetrantes. Tudo real, verdadeiro, autêntico, mesmo a tristeza embrulhada em ti. Tenho-a presente nesta memória de lágrimas, porque escondia uma espécie de feitiço. As recordações renascem quando o infortúnio nos atinge. Rápidas, impressivas, chocam-se numa fúria recuperadora de tormentos, enroscando-se à nossa árvore como plantas daninhas, deixando arranhões para desassossego do espírito. Destapam-se os véus do tempo onde se foi acumulando o pó do caminho: o júbilo ansioso e quente da juventude; o período da Relação e a comédia do julgamento; a morte do Manuel, a quem deste o afeto de um pai, a verdadeira porta de entrada da tragédia. São estes fios antigos que acabam por transformar a memória em bálsamo ou maldição.
A Casa da Póvoa vestida de luto…
Conversávamos muito Manuel, divertíamo-nos mesmo. Tua mãe, pouco expansiva a exteriorizar sentimentos, gostava de nos ver assim. Morreste sem supor o meu sofrimento nem a dor nascida no poço do meu coração. Recolhido, chorei de amor por ti e ódio a teu pai por ter-te repudiado como bastardo dos meus amores adúlteros. Mentira, Manuel! De nada serviu gritar essa mentira pois o Alves foi um sacana que não te perfilhou por ódio a tua mãe. Dezassete anos são muito cedo para morrer. Ao perder o voo da tua juventude mergulhei a três mil metros de profundidade e só voltei à superfície quando o Jorge nasceu. Uma ilusão o querido Jorge… Adorei-o e protegi-o devido à sua loucura. Amor maldito o nosso Ana, amaldiçoado pelo Alves, a igreja, a sociedade, a imprensa, a corte. Fomos escorraçados, vergastados, banidos pelo ódio e a inveja. Os ventos da intriga e da maldade não conseguiram, porém, arrasar a imortalidade das nossas almas.
De que valerá a imortalidade de destinos infelizes? Ao próprio nada, aos outros a emoção de acompanhar um percurso invulgar. O teu incorporou o génio de um escritor infatigável por necessidade de sobrevivência e impulso criativo de uma personalidade tumultuosa. Viveste em função dos teus livros e das palavras, suporte de uma ácida amargura e arma de defesa e arremesso que te custou inimizades fiéis. Mordaz em extremo, tratavas mal nos teus textos aqueles que detestavas pondo-os a ridículo. Conviveste mal com essa consciência cuja agressividade descarregavas nos momentos de cólera. Sempre soube que não eras um homem vulgar, nem quando espalhavas a influência nefasta do teu espírito, nem quando sofrias o arrependimento dos teus sacrilégios, nem quando te humilhavas para obter um emprego, nem mesmo quando amavas. Criaste com os teus romances um universo de figuras nascidas sob o signo da fatalidade que trazias contigo. Castigaste-as, perseguiste-as, submeteste-as às maiores dores das trevas da alma porque a dualidade do teu espírito fazias sofrer. No íntimo, adoraste representar o teu próprio drama para melhor garantires a imortalidade.
Passaram horas ou minutos? O tempo é enganador em momentos de aflição. Há um percurso de nuvens a impedir o pensamento: umas brancas, longas, esfarrapadas, envolvendo-lhe o tronco; outras cinzentas como rolos de fumo representando a escuridão do arrependimento; muitas pequenas, amorosas nas suas brincadeiras; algumas enormes de um cinzento pesado, chuvoso de lágrimas prontas a soltarem-se. Nuvens de atormentação que mergulham no mar dos erros irreparáveis. Não há palavras, nem sons, nem perfumes, nem flores que aquietem este colapso da vida cuja nascente deixa deslizar ruídos de sílabas indistintas.
No compartimento há o odor viscoso da agonia subitamente visitada pelo exército de figuras que desertaram dos seus livros. Fauna de espetros, homens e mulheres com almas de papel moldadas por palavras, arrastam alvos panos de linho, sudários para embrulhar o corpo que já não sente. Que estás tu, Augusto, aqui a fazer? E tu Fanny, doce Fanny, com essa mortalha de amor a envolver a brancura virgem do teu corpo? E o António? Ai, o cobertor com que mataste a tua mulher está guardado lá em baixo numa arca de cânfora. Abade, chegue-se ao pé de mim, não para me confessar mas para conversarmos como nos serões que passámos juntos em jogatina. Vieste-me visitar António Feliciano? Tu sim, tiveste a grandeza humana de quem soube suportar a cegueira com sentido de sacrifício e nobreza de caráter. Amigos meus, quem sou eu junto de vós, se fui incapaz de percorrer o último trilho da minha existência? Ajudem-me a encontrar minha estrela para que deixe tranquilamente nesta casa as memórias atormentadas do meu percurso. Há uma imensidão de flores povoando caminhos, um horizonte atapetado de cores, um perfume suave e místico envolvendo por inteiro a minha alma e atraindo-a para a paz dos campos onde vejo agora o brilho do templo da eternidade.
Pousou uma imensa noite à minha volta. Desapareceram as flores e o caramanchão está seco. Domina-me a mágoa de não ter conseguido prolongar a paixão… Em seu lugar acomodei-me ao amor trivial assegurado por hábitos que confundem a natureza das coisas e a natureza das coisas aqui somos nós. Ficou tanto por fazer… Mesmo que vivêssemos mil anos ficaria muito por fazer, coisas simples que vão sendo adiadas até se tornarem irrecuperáveis. Gostava de te beijar na boca como antigamente. Gostava de afrontar a sociedade como antigamente. Não há retorno do drama que trago comigo desde o berço. Dizem os ocultistas que terei sido tocado por espíritos malignos influindo a minha malssinada existência. Viveste com um louco Ana Plácido, um louco que te seduziu mas não te soube amar. Viveste entre loucos: Pinheiro Alves foi um cornudo enlouquecido pelo despeito do adultério; Jorge um louco moldado pela inconstância do génio; o Nuno foi louco de estroinice e eu louco fui toldado pela imortalidade de um espírito que viveu na dor dos seus fantasmas. Só tu foste lúcida neste hospício de Ceie. Dizer que me arrependo, pedir perdão, são agora inutilidades. Fazê-lo no momento limite da vida representa o cinismo do medo porque é impossível redimir os erros. Quero a tua mão Ana… Onde está a tua mão?… Está tudo tão escuro neste túnel habitado pelos fantasmas da minha condição… Quero voltar a dizer que te amo, confessar que te amo. O que hoje amo em ti nem é o corpo que trocou a volúpia das formas pela corpulência da maturidade, nem a volátil manifestação dos afetos que servem para construir uma moral. Apesar desses perpétuos charutos que empestam a casa, amo em ti a energia altiva capaz de suportar os meus excessos, crises e penúrias. Ontem à noite, em casa do nosso filho Nuno, o instinto disse-me que a visita do médico seria a do anjo anunciando-me a sentença fatal. Abriu-se no peito um eco de morte. Visitaram-me pensamentos e a desconfortável consciência de que faltavam palavras nas nossas vidas, imensas palavras jamais ditas ou, se o foram, raramente escutadas. Esqueci-me de ti…, de mim…. A paixão de escrever só revelou os sentimentos das minhas personagens. Uma solidão este meu destino condenado à pobreza da celebridade literária, aos amores tempestuosos, à humilhante condição de fidalgo mendicante. Poucas armas tive para tanta desgraça… Que frio imenso me percorre o corpo… que noite… que silêncio…
O corpo existe mas não o sente. O espírito flutua entre novelos de fumo numa outra dimensão vagamente cinzenta e sem limite. O sol da tarde empalideceu criando sombras de contornos imprecisos. Através da janela avistam-se trigais e milheirais que o Jorge, nos seus acessos de insânia, afogueava para se divertir com a visão das labaredas. O chão retém lágrimas dos criados que acompanham seu amo. Já passou pelo medo, pela dor, pela consciência do conhecimento das suas abjeções. Ceide foi a maldição do Alves. A paixão feneceu ali lambendo o tempo até à resignação. Amaram-se mal naquela casa. Quantos anos? É muito tempo para amar e sofrer.
Esfumam-se sons sustidos nos derradeiros instantes da vida. Camilo morre podre. Não é apenas a cegueira mas os ossos, os rins, os dentes, a surdez, a alma. Há uma aurora verde à sua espera, nuvem de luz que desponta como início de uma partitura não localizável mas crescente. Uma figura azul desponta da orla templo sagrado, e sob o manto do sono da tranquilidade estende a mão num convite sereno. Quem és, não te conheço dos meus romances? Chamo-me Mumiah o teu anjo da guarda que tanto maltraste em tua vida,
Ana Plácido passa a mão pelo rosto branco e frio de Camilo, corre-lhe as pálpebras e diz: transportem-no com cuidado para o quarto, deitem-no sobre a cama mas não o dispam. Acendam as velas do oratório.
Algueirão, 24 Julho 2008

