Parte I
NA ECONOMIA REAL NÃO HÁ MILAGRES: a gigantesca campanha de manipulação da opinião pública em curso visando fazer crer o contrário
Neste momento está em curso no nosso país uma gigantesca operação de propaganda levada a cabo pelo governo e pelos seus defensores na comunicação social com o objetivo de convencer a opinião pública que a política de austeridade resultou (“os sacrifícios valeram a pena” repetem); que se está a verificar uma viragem económica, e que Portugal entrou no crescimento económico e desenvolvimento. Uns por convicção ideológica, outros por terem sidos sujeitos a uma captura cognitiva, põem de parte a análise objetiva e os ensinamentos da ciência económica substituindo-a por afirmações de euforia com base em dados isolados e seleccionados. E quem não concorde com eles ou é silenciado nos media, ou então se tem a sorte de ter acesso alguma vez a eles, é impedido de falar como me aconteceu no programa da SIC “Negócios da semana” de JGF (interrupções continuas impedindo de desenvolver qualquer raciocino até ao fim, o que não se verificou com o outro participante – Pais Antunes – sendo a justificação depois dada por JGF que não o interrompia porque ele estava de acordo com JGF). Mas se a “recuperação da economia” fosse verdade por que razão se mantém o enorme aumento de impostos em 2014, se cortam salários e pensões, se corta no SNS, na educação e nas prestações sociais em 2014? Interessa, por isso, analisar de uma forma fundamentada e objetiva a “recuperação da economia” do governo utilizando os próprios dados oficiais. É o que vamos procurar fazer.
PORTUGAL É UM PAÍS ONDE A RIQUEZA PRODUZIDA CONTINUA A DIMINUIR
Contrariamente ao que pretendem fazer crer o governo e os seus defensores nos media, em 2013 a riqueza produzida, medida pelo PIB, continuou a diminuir como mostra o gráfico 1.
Gráfico 1 – Evolução do PIB no período da “troika” e do governo PSD/CDS
FONTE: INE e previsões do governo e do Banco de Portugal para 2013
A quebra do PIB verificou-se também em 2013, ano de “recuperação económica”. A previsão do governo para 2014 é uma subida do PIB de apenas 0,8% (a OCDE prevê 0,4%), ou seja, a estagnação económica E mesmo este crescimento reduzido não tem em conta todos os efeitos recessivos do corte brutal da despesa pública (salários, pensões, etc.) em 2014.
DADOS DO BANCO DE PORTUGAL DE 2014 NÃO CONFIRMAM A RECUPERAÇÃO ECONÓMICA CONSISTENTE ANUNCIADA PELO GOVERNO
Dados dos “Indicadores de conjuntura” divulgados pelo Banco de Portugal em Janeiro de 2014, revelam que a situação é diferente daquela que se pretende fazer crer.
O CONSUMO DAS FAMÍLIAS, O INVESTIMENTO E PROCURA INTERNA CONTINUARAM A CAIR EM 2013 SEGUNDO TAMBÉM O INE
O consumo das famílias, que determina o seu nível de vida, assim como o investimento, bem como a procura interna fundamentais para a recuperação da economia portuguesa continuaram a cair em 2013 como revelam os dados do INE constantes do quadro 3:
E isto até porque a procura externa, tão valorizada pelo governo e seus defensores para recuperar a economia, começa a revelar sérias dificuldades. Na pág. 5 dos “Indicadores de conjuntura “ divulgados em Janeiro de 2014, a propósito do “milagre das exportações” o Banco de Portugal refere o seguinte: Em termos acumulados, desde o início do ano de 2013, “as exportações e as importações, excluindo os combustíveis, aumentaram 1,8% e 1,1% respetivamente”. E se a analise tiver como base Nov. 2013, portanto um mês em que, segundo o governo, já se verificou a recuperação da economia, o Banco de Portugal refere que “as exportações e as importações, excluindo os combustíveis, aumentaram 2,7% e 5,1% respetivamente”, portanto o crescimento das importações foi quase o dobro do aumento das exportações. Isto mostra, como tínhamos alertado, que a redução do défice externo não é estrutural, basta uma pequena alteração conjuntural – neste caso a substituição da frota de viaturas pelas empresas – para alterar a situação.
(continua)
