A apresentação das estatísticas do 4º trimestre de 2013 não merece, ao contrário do que diz Cavaco Silva, qualquer aplauso. O Governo apenas está a conseguir fazer aquilo a que se propôs desde o início do seu mandato: transformar quem trabalha no país em mão-de-obra precária, barata e sem direitos. A corrida para o fundo, promovida pelo governo da Troika, começa a raspar o fundo. Os empregos criados no último ano são principalmente contratos a prazo e part-times. A volatilidade e intercâmbio de situações laborais já é uma constante das estatísticas do INE. No entanto o Governo esqueceu-se de avaliar a evolução anual.
O anúncio sucessivo de melhorias a nível do mercado do emprego tenta dissimular, a cada novo acto proclamativo, a realidade da reconfiguração laboral em marcha: a força de trabalho continua a ser massivamente precarizada com vista a empurrar o custo do trabalho e a baixar todos os direitos laborais e o Estado Social. Os novos dados do INE não apresentam propriamente grandes novidades, excepto que confirmam a grande volatilidade da mudança entre diferentes métodos de precarização: de falsos recibos verdes para contratos a prazo, de contratos a prazo para part-times, etc., sempre em constantes trocas com a situação de desemprego. A nova taxa de desemprego anunciada é de 15,3%, i.e., 826,7 mil pessoas desempregadas.
Neste último trimestre de 2013 a grande subida coube aos “outros contratos”, vulgos biscates, que subiram em quase 10 mil quando comparados com o trimestre anterior (126 mil para 133 mil), aos subempregados que subiram para 263,4 mil (de 261 mil). Os recibos verdes voltaram a cair, perdendo 45,1 mil pessoas, em comparação com o semestre anterior. Uma das grandes surpresas foi a subida dos contratos sem termo, em comparação com o período homólogo (4º trimestre de 2012), com um aumento de 22 mil contratados sem termo (mais 59 mil quando compara com o trimestre anterior). Há mais 50 mil pessoas contratadas a prazo do que no período homólogo, e menos 12 mil em relação ao trimestre anterior.
Nenhum dos comentadores ou governo falou nos dados relativos às variações da população e da população
Tal como é evidente no próprio informe do INE, os números do desemprego esvaziam-se tanto para a inactividade (15,4%) como para o emprego (18,3%). É sobre esta fórmula que tem sido possível uma descida tão acentuada das estatísticas do desemprego.
Os dados hoje divulgados revelaram também os números totais para 2013, permitindo ainda aumentar a possibilidade de análise de tendências anuais. Apenas como exemplo mais exacerbado, a população activa caiu em 153,8 mil pessoas de 2011 para 2013, acompanhando uma perda geral de população total, que perdeu 147,4 mil pessoas, segundo estes dados.
A ascensão de um país onde a precariedade é a única regra vai-se consolidando com cada nova divulgação de dados de emprego. Uma das características desta precarização é a volatilidade e as súbitas subidas e descidas acentuadas de emprego em determinadas circunstâncias: a montanha russa da precariedade vive da sazonalidade, da inconstância e das veleidades patronais e de governos deste tipo – da rápida contratação a prazo para anúncio público, do despedimento em massa para garantir mais lucros em determinada altura, de ser posto em “stand-by” à espera do próximo recibo verde. Um país precário a ser imposto a toda a população.

