Site icon A Viagem dos Argonautas

Novas Viagens na Minha Terra – Série II – Capítulo 188 – por Manuela Degerine

Imagem1

Almas gémeas… ou não

Chego do Cabo, lavo a roupa, tomo duche – e deito-me. Durmo muito bem. Estamos em abril, existem diversos albergues em Finisterra, portanto os peregrinos encontram-se dispersos, jaz aqui uma dezena de dormentes, há silêncio e sossego na camarata: fenómeno raro em tais lugares.

Este albergue tem uma arquitetura e uma organização particulares – por exemplo: de manhã a cozinha está fechada. Vou pela rua comendo uma maçã e três biscoitos enquanto me dirijo para o caminho de Muxia. Oiço chamar… Adriano tomava o pequeno-almoço no café do albergue quando me viu passar, por conseguinte paro para me despedir enquanto bebo um café com leite, deixo-lhe o contacto para continuarmos a compartilhar figuras e leituras de estilo.

A raridade das almas gémeas na vida quotidiana e a sua relativa abundância por aqui revela algo sobre o Caminho de Santiago… E muito sobre a Europa. Em menos de quinze dias encontrei Angelika, Emma, Adriano que não se tornam meus amigos apenas por vivermos a milhares de quilómetros de distância. (Não cultivo amizades no Facebook.)

Prossigo a caminhada para Muxia. Percorridos quatro quilómetros, perto de Hermedesuxo, há uma sinalização contraditória… Miro – indecisa – umas setas que vão em frente, outras que viram à direita, decerto duas variantes do mesmo, prestes a seguir as direitistas, lembrada do que ocorreu no ano passado, porém um todo-o-terreno trava, o outro itinerário é pantanoso, garante o condutor, o qual recomenda a beira desta estrada, por onde quase não circulam carros, um percurso mais curto e muito mais bonito… Que é bonito, não o ignoro, segui as suas praias esplendorosas, não obstante a tendinite, desci uma íngreme encosta, caminhei pelo areal, à beira da água, pelas dunas floridas e, quando me cansei, trepei pela ribanceira acima, através de um matagal espesso: uma prova atlética que não me arrependo de haver realizado. Sigo o conselho.

Vejo duas mulheres a semear batata, sucessivos campos de flores, pervincas, junquilhos, miosótis, escabioses, lírios bravos… Vou na alegria fisiológica dos primeiros quinze quilómetros, no ímpeto da primavera, suas cores, seus perfumes, sua música de corvos e ramagens, na suprema beleza desta terra, rumo à costa brava e branca, na euforia de uma imensa liberdade… Quando oiço caminhar.

– Então a Mika?!

– Não faço a mínima ideia.

(Mau, mau, Maria. Já não navegam de conserva? Franz não desvenda o mistério. E eu sou bem-educada: nada mais pergunto.)

Exit mobile version