Site icon A Viagem dos Argonautas

CONTOS & CRÓNICAS – “O Filipe” – por Eva Cruz

contos2

Já com a paciência esgotada de tanto esperar pelo conhecido ”reforço”- na mão a senha 101 – , no meio de um corredor do Centro de Saúde a cheirar a doença, alguém, não contendo a vontade de meter conversa, resolveu abrir a boca:

– Só está você para esta sala, então sou eu a seguir, mas se todos demorarem tanto como eu é só cinco minutos. Sr. Segurança, ligue-me a televisão, deve estar a dar a novela e eu vejo todas as telenovelas à tarde e à noite.

O paciente, que de paciência se trata, viu em mim o interlocutor mesmo a jeito, para amparar a sua compulsiva vontade de falar. O segurança ligou a televisão, surgiu a imagem que iluminou de alegria a cara do rapaz, mas o aparelho recusou-se a produzir som.

– Eu logo vi que alguma coisa havia de falhar, mais valia não ter cá nada para não enganar a gente.

O Filipe disse que tinha trinta e três anos. Fora recluso durante oito anos e estava ainda em liberdade condicional. Fez de tudo, só não matou, nem roubou por esticão. Prostituiu-se, traficou droga e consumiu da mais leve até à branca.

– Abro um carro ou uma porta em segundos.

Por acaso, crescia no momento, na minha terra, uma onda de pânico por causa dos assaltos a residências. E eu descansada ao lado de um assaltante profissional, tão inofensivo e cordial, ao ponto de fazer de mim sua confidente!

– Há onze meses que não consumo. Do tabaco é que não me livro.

Passavam em frente a nós várias pessoas, doentes, gente de bata branca, gente da limpeza. Altifalantes chamavam pelos nomes, abriam-se e fechavam-se portas de gabinetes, e por entre espirros e tosse de catarro a nossa conversa foi fluindo.

– Estava numa cela com mais quinze, assim deste tamanho, e apontava para um canto de uns exíguos metros. Eram beliches de quatro.

– Estudaste?

– Só fiz o quinto ano. Não foi bem o quinto ano, a bem dizer foi só o quarto porque o meu falecido pai morreu. Ele trabalhava numa empresa de construção. Hoje o “man “para quem ele trabalhava tinha de lhe dar uma indemnização do “caraças”, mas naquele tempo ninguém ligava nada, e a minha mãe com três filhos, sabe como é. Vivíamos muito mal, numa bouça, a senhora sabe o que é uma bouça, à “fase” da estrada. Que vida de miséria! Sabe, era puto e as más companhias é que me mataram. Comecei a roubar bicicletas. Coitada da minha mãe. As minhas irmãs até estão bem. Uma já teve dois gémeos e agora vai ter outros dois. Quero ver se tenho juízo, porque gosto muito da minha mãe e ela ajuda-me. Não a quero desiludir.

– Os seus olhos de um azul cor de água abriam-se num misto de mágoa e esperança e aninhava-se na cara marcada pela miséria e pela desgraça um sorriso de criança, cheio de dentes brancos, ainda saudáveis.

– Tens uns olhos lindos e os teus dentes não estão estragados. És um rapaz mesmo bonito, ainda és muito novo, tens o mundo pela frente, Vê lá se ganhas juízo! Ainda podes ser muito feliz, rapaz. Sabes, eu fui professora e lidei, infelizmente, com casos desses.

– A senhora foi professora de quê? E a senhora acha-me mesmo bonito? A senhora, vê-se que já não é nova mas também devia ter sido bonita. Se a senhora fosse nova e lhe aparecesse assim pela frente um rapaz como eu, que já esteve preso, a senhora queria-me?

O azul dos olhos tomava a cor do céu. Não esperava pela pergunta e espontaneamente respondi:

Claro, se estás recuperado…

– Ele pegou-me nas mãos e beijou-as. Fiquei arrepiada.

– Na cadeia havia de tudo. Muitos assassinos, na minha camarata estava um que tinha cortado a mãe aos bocados e meteu-a numa arca frigorífica. Até veio nos jornais. Acho que foi com ciúme de um irmão a quem a mãe deu o que tinha. Olhe, ele não fazia mal a uma mosca. Com um empurrãozito eu deitava-o ao chão. No recreio só queria andar comigo mas nunca falava. Até era meu amigo. Havia respeito uns pelos outros. Sabe o que é que eles não perdoavam? Violações. Um dia cheguei à cela e estava um “man”, para aí com cinquenta anos, pendurado do tecto.

– Pensei na complexidade do ser humano e no direito de julgar.

– Vi aquilo e fui a correr à biblioteca dizer que estava um “man” enforcado no tecto. Tinha violado duas vezes uma miúda de cinco anos e eles aí limpam-lhes logo o sebo. E droga, lá dentro, era só querer, mais fácil passá-la do que num centro comercial. E depois era cada carro de alta cilindrada, até um Lamborghini lá havia.

E no azul dos seus olhos cabia o mar inteiro!

– Não digo mais nada.

– Não precisas.

A voz do altifalante chamou pelo meu nome.

– Tenho de ir. Adeus Filipe, vê lá se tens juízo!

– Muitas felicidades para si, minha senhora, e se precisar que lhe abra uma porta de um carro ou da casa, é num minuto. E, olhe…Bom Natal.

Apesar de estarmos em Março!

Exit mobile version