CONTOS & CRÓNICAS – “Hampstead Heath ou Sonho n° 50” – por Sílvio Castro
carlosloures
Tudo ocorre como num sonho, mas de claras realidades.
Os sonhos criam signos que aparecem e desaparecem como o agir de uma sintaxe – narração fugaz – que, mais além do formal, se estrutura no sentido da lógica absoluta, resultante da própria síntese visiva. Mas são formas visivas que estabelecem um diálogo não com o receptor, mas entre elas. O receptor é quase somente um espectador autoconvidado e que luta para não ficar fora do discurso que desafia a sua pessoal lógica formal. Os signos visivos oníricos são elementos que se esclarecem e se obscuram em movimentos simultâneos e no definitivo desafio ao espectador não convidado. A este resta somente a força de atenção indormida que está por detrás do sono que teima em distanciá-lo definitivamente dos signos e de suas correspondentes alógicas revelações. No final o conto é a quase desesperada experiência do espectador indormido, qual o nadador sem perícia que escapa ao afogamento.
No alto da colina parado diante do túmulo de Marx o frio era mais intenso e ficar ali parado a contemplar o túmulo marcado por uma pedra rasa e pela cabeça fantástica que tudo convoca era como confundir-se com os ramos e flores secas no ar gelado
Sombras de passantes o acompanhavam na estradinha de pedras e muitas vezes o caminho se perdia em meio a um bosque de árvores ressequidas
Descendo logo abaixo da colina lhe apareceu o lugarejo de não muitas casas que teimavam em permanecer fechadas na tarde nevosa Entre as casas repentinamente se mostraram como presenças vivas as luzes do pub The Angel Dentro o calor que não existia fora se mostrava dadivoso e os muitos homens e mulheres se aconchegavam sorridentes com seus chás fumosos ou com os copos de cerveja
A cerveja preta logo lhe deu a sensação do bem-estar e ele bebeu duas três vezes copos com o prazer de um encontro desejado naquela tarde fria
O ar do pub era sereno e composto como se no silêncio que predominava muitas vozes se falassem com uma alegria que os vultos não deixavam ver claramente nas sombras das salas
O barista não parava de servir chás e cervejas e ele então se via envolvido por tudo aquilo que acontecia no pub muito diferente do frio da colina e que lhe vinha do prazer que sentia com as vozes quase invisíveis e com o sabor da cerveja preta Foi quando debruçando-se sobre o balcão para beber mais a sua cerveja preta viu por terra uma carta Abaixou-se pegou a carta e começou a ler Era uma carta de uma mulher para um homem Surpreso como que surpreso por estar com aquela carta nas mãos ele se levantou pagou a conta e saiu
O frio da tarde era pungente enquanto ele deixava Highgate Village e entrava no grande parque que desce sempre para a cidade Ele lia a medo a carta da mulher que escrevia ao homem para dizer que estava pronta para encontrá-lo que estava pronta para sair e ir até ele mas que não mais podia Que tudo se passara improvisamente quando ela já estava certa de deixar a casa e ir com ele quando ela já se preparava para aquele encontro que antes se repetira em tantos breves momentos de preparação de suas certezas Agora estava pronta e de repente não mais podia ir ao encontro desejado com todas as suas ânsias
Ele lia e caminhava pelo parque sempre frio e mais o sofria com as revelações da carta I was looking forward to this day I felt happy because I knew that today I would meet you and that out brief encounters would meet you and thas out brief encounters would come to an end
Ele lia a carta no frio do parque quando se sentiu invadir por um calor forte e o parque agora era a praça Afonso Pena com canteiros de flores as árvores coloridas de um vermelho exuberante e as águas de um lago espelham o entardecer ainda ávido de luzes Desejei muito que chegasse este dia Me sentia feliz por saber que hoje teria encontrado você e que a brevidade das coisas que vivemos até agora teria passado para sempre Mas não é assim Adeus