CONTOS & CRÓNICAS – “Hampstead Heath ou Sonho n° 50” – por Sílvio Castro

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Tudo ocorre como num sonho, mas de claras realidades.       
Os sonhos criam signos que aparecem e desaparecem como o agir de uma sintaxe – narração fugaz – que, mais além do formal, se estrutura no sentido da lógica absoluta, resultante da própria síntese visiva. Mas são formas visivas que estabelecem um diálogo não com o receptor, mas entre elas. O receptor é quase somente um espectador autoconvidado e que luta para não ficar fora do discurso que desafia a sua pessoal lógica formal. Os signos visivos oníricos são elementos que se esclarecem e se obscuram em movimentos simultâneos e no definitivo desafio ao espectador não convidado. A este resta somente a força de atenção indormida que está por detrás do sono que teima em distanciá-lo definitivamente dos signos e de suas correspondentes alógicas revelações. No final o conto é a quase desesperada experiência do espectador indormido, qual o nadador sem perícia que escapa ao afogamento.

                No alto da colina parado diante do túmulo de Marx o frio era mais intenso e ficar ali parado a contemplar o túmulo marcado por uma pedra rasa e pela cabeça fantástica que tudo convoca era como confundir-se com os ramos e flores secas no ar gelado

                Sombras de passantes o acompanhavam na estradinha de pedras e muitas vezes o caminho se perdia em meio a um bosque de árvores ressequidas

                Descendo  logo abaixo da colina lhe apareceu o lugarejo de não muitas casas que teimavam em permanecer fechadas na tarde nevosa  Entre as casas  repentinamente se mostraram como presenças vivas as luzes do pub The Angel  Dentro  o calor que não existia fora se mostrava dadivoso e os muitos homens e mulheres se aconchegavam sorridentes com seus chás fumosos ou com os copos de cerveja

                A cerveja preta logo lhe deu a sensação do bem-estar e ele bebeu duas três vezes copos com o prazer de um encontro desejado naquela tarde fria

                O ar do pub era sereno e composto  como se no silêncio que predominava muitas vozes se falassem com uma alegria que os vultos não deixavam ver claramente nas sombras das salas

                O barista não parava de servir chás e cervejas e ele então se via envolvido por tudo aquilo que acontecia no pub muito diferente do frio da colina e que lhe vinha do prazer que sentia com as vozes quase invisíveis e com o sabor da cerveja preta  Foi quando  debruçando-se sobre o balcão para beber mais a sua cerveja preta viu por terra uma carta  Abaixou-se pegou a carta e começou a ler  Era uma carta de uma mulher para um homem  Surpreso  como que surpreso por estar com aquela carta nas mãos  ele se levantou  pagou a conta  e saiu

                O frio da tarde era pungente enquanto ele deixava Highgate Village e entrava no grande parque que desce sempre para a cidade  Ele lia a medo a carta da mulher que escrevia ao homem para dizer que estava pronta para encontrá-lo  que estava pronta para sair e ir até ele  mas que não mais podia  Que tudo se passara improvisamente quando ela já estava certa de deixar a casa e ir com ele  quando ela já se preparava para aquele encontro que antes se repetira em tantos breves momentos de preparação de suas certezas  Agora estava pronta e de repente não mais podia ir ao encontro desejado com todas as suas ânsias

                Ele lia e caminhava pelo parque sempre frio e mais o sofria com as revelações da carta  I was looking forward to this day  I felt happy because I knew that today I would meet you and that out brief encounters would meet you and thas out brief encounters would come to an end

                Ele lia a carta no frio do parque  quando se sentiu invadir por um calor forte e o parque agora era a praça Afonso Pena  com canteiros de flores  as árvores coloridas de um vermelho exuberante e as águas de um lago espelham o entardecer ainda ávido de luzes  Desejei muito que chegasse este dia  Me sentia feliz por saber que hoje teria encontrado você e que a brevidade das coisas que vivemos até agora teria passado para sempre  Mas  não é assim  Adeus

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