CONTOS & CRÓNICAS – Sonho zero – por Sílvio Castro

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Tudo ocorre como num sonho, mas de claras realidades.
Os sonhos criam signos que aparecem e desaparecem como o agir de uma sintaxe – narração fugaz – que, mais além do formal, se estrutura no sentido da lógica absoluta, resultante da própria síntese visiva. Mas são formas visivas que estabelecem um diálogo não com o receptor, mas entre elas. O receptor é quase somente um espectador autoconvidado e que luta para não ficar fora do discurso que desafia a sua pessoal lógica formal. Os signos visivos oníricos são elementos que se esclarecem e se obscuram em movimentos simultâneos e no definitivo desafio ao espectador não convidado. A este resta somente a força de atenção indormida que está por detrás do sono que teima em distanciá-lo definitivamente dos signos e de suas correspondentes alógicas revelações. No final o conto é a quase desesperada experiência do espectador indormido, qual o nadador sem perícia que escapa ao afogamento-

                    O chefe índio reuniu todas as canoas na curva do rio no lado da entrada da aldeia e as deixou prontas para a partida  Os guerreiros com muitas flechas e arcos agora escutavam as palavras do chefe  depois dos exercícios na planura  e se preparavam para a batalha que a cada um deles chegaria com o amanhecer  Depois da fala geral  o chefe índio retornou com os jovens guerreiros para a aldeia e a noite já descia  As mulheres preparavam as festas da partida e as bebida ferviam nos potes grandes e a caças cozim no fogo  no meio da aldeia  Os guerreiros beberam e dançaram entoando cantos que se levavam para a batalha  O chefe índio cantou o último canto debaixo da luz da lua e das estrelas  Depois as vozes emudeceram na noite  A fogueira se apagou  Os guerreiros se dispersaram pela aldeia  mas não o chefe índio que continuou sozinho a contemplar os últimos estalos da lenha no fogo quase morto  Depois o chefe índio se encaminhou para a casa dos homens  levando consigo um fogo intenso que arderia por toda a noite e  então deitou-se e preparou-se para sonhar com a guerra que devia enfrentar

                O sonho perseguido a batalha  a vitória contra os fortes inimigos  tudo teimava em esconder-se no sonho do chefe índio  Somente uma extensa planície branca aparecia vazia e silenciosa  A brancura persistia na distância do sonho do chefe guerreiro como a barreira nascida de um eco mudo que encobrisse a vitória sonhada  O chefe índio debatia-se contra a brancura do sonho  procurava perfurá-la  chegar além dela naqueles confins da planície onde o verdadeiro sonho se escondia  O chefe índio os animais que passeavam na brancura  os peixes que nadavam na corrente criada pelo deslizar das canoas e os pássaros que cantavam mudos  O guerreiro se debatia na planície dos sonhos  Até que de improviso ele viu um grande imenso papagaio vermelho e verde e amarelo e azul que gritava  gritava  e esvoaçava como enolouquecido diante dele na planície  O papagaio ia sempre  para a frente  sempre mais para a frente  Até que os seus gritos cessaram e o chefe índio viu finalmente a batalha  Eram muitos e valentes os inimigos  O chefe os acometeu com seus guerreiros e tudo foi uma grande guerra e nela o grito do papagaio se exaltava sempre e mais  e a cada grito o chefe índio vias seus inimigos que caíam pela intensidade da sua vingança e pela força de seus sonhos de cores esfuziantes que cobriam a brancura da planície

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