Quarenta anos após o 25 de Abril, falar de Teatro deveria ser um dos actos mais naturais do dia-a-dia, pressupondo que, como sonhámos há quarenta anos, os problemas essenciais dos portugueses estariam resolvidos, vivendo-se hoje numa sociedade mais justa, em que as diferenças entre ricos e pobres estariam bem mais atenuadas, não só em Portugal mas em todo o Mundo. Os textos que oferecemos hoje aos nossos leitores tornarão bem claro como, hoje, há uma necessidade de falar de Teatro, uma arte que por excelência nos leva à reflexão e à tomada de consciência de que somos responsáveis por tudo o que nos vai acontecendo e que vai determinando a nossa vida.
Os textos que terão oportunidade de ler são feitos por pessoas que ao Teatro têm dedicado os melhores anos das suas vidas, alguns deles fazendo do Teatro a sua profissão, profissão esta com características muito específicas pois «O Teatro, como escreve Rui Mendes e ele sabe do que fala, só pode ser praticado com afectividade, com a generosidade de dar e com a coragem de pugnar pelo bem. Caso contrário, renega-se, abastarda-se.»
O Teatro, como o espelho da sociedade que é, nunca poderá viver indiferente ao real, daí dizer-se que o Teatro está sempre em crise, pois uma sociedade perfeita estará sempre por alcançar e haverá uma permanente razão para que o Teatro não deixe de falar dos problemas que afligem os seres humanos, sendo uma das razões por que os governantes têm por ele tão pouco amor. O dia em que tivermos os governantes a apoiar claramente o Teatro estaremos, com certeza, à beira de ver resolvidos os problemas sociais da sociedade humana.
A situação que vivemos hoje, com um primeiro-ministro candidato a novo «Salvador da Pátria», terá de nos inquietar e fazer agir e o Teatro não pode deixar de reflectir no que se vive hoje em Portugal e no Mundo e, fazendo-o, cumpre a sua missão. Mudar a situação política não é tarefa do Teatro, essa compete-nos a nós!
As conquistas sociais obtidas nestes quarenta anos do pós-25 de Abril correm hoje sérios riscos e algumas delas, que beneficiaram os que do seu trabalho vivem, já foram destruídas por um governo indiferente aos dramas que originou e continua a originar, o que transforma o falar de Teatro numa necessidade, mas não haverá melhor forma de dele falar do que fazendo-o, por profissionais e amadores, em equipa uns e outros ou uns com os outros, numa conjugação de esforços, em diálogo permanente com todos aqueles que lutam pela transformação da realidade que vivemos e na construção de uma sociedade mais livre e mais feliz, destruindo os «Tempos Sombrios» em que hoje vivemos.