DIA DO TEATRO – Falar de Teatro ou da sua História, lembrando o resistente Armando Caldas – por António Gomes Marques

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Mais um Dia Mundial de Teatro que nos obriga a falar… de teatro, o que nos leva a uma interrogação: porquê falar de teatro neste dia? Por que não falar de teatro todos os dias? Por que não falar da sua história?

 

Quando à História do Teatro nos referimos, do que é que estamos a falar? Da história da dramaturgia? Não pode ser, seria uma história apenas da dramaturgia, esquecendo todas as outras componentes que uma História do Teatro não pode ignorar, seria esquecer, nomeadamente, outras partes essenciais dessa História: actores, encenadores, textos e uma outra componente sem a qual não há teatro, ou seja, o público.

Mas há outras considerações que poderão ser feitas. Peguemos naqueles quatro elementos, reflitamos um pouco sobre cada um deles e logo concluiremos que apenas um deles permanece sem alteração ao longo do tempo: o texto que o autor nos legou! Mas esta afirmação não será uma contradição com o que se afirma ser a História do Teatro? Claro que não, é outra riqueza desta arte ímpar que dá pelo nome de Teatro e a que ainda poderíamos juntar um outro elemento, e com muito tempo de vida, milhares de anos alguns, que é o espaço onde o espectáculo de teatro acontece.

Mas falar de teatro, ou da sua História, é também falar detodos os meios de expressão artística, sejam musicais, pictóricos, plásticos e até arquitectónicos. Com tais meios de expressão, o teatro torna-se uma arte total, capaz de representar uma universalidade de temas que têm a ver com o homem e com o mundo, como tive ocasião de escrever em um outro texto, e não apenas a arte do actor, como muitos tendem a considerar, opinião esta que também nos poderá fazer reflectir se pensarmos que, para acontecer teatro, basta haver um texto ou um guião, um espaço nu, um actor e, indispensável, um público, cabendo aqui um papel fundamental ao actor.

Mas a História do Teatro deverá também mostrar que o teatro é fruto de um trabalho colectivo e ainda referir um outro aspecto, quase único desta arte, que é a constante renovação de espectáculo para espectáculo, ou seja, no teatro não há dois espectáculos iguais, mais diferentes ainda se assistirmos a um mesmo texto em épocas diferentes, se esse mesmo texto for interpretado por diferentes encenadores e diferentes actores. Essa História deverá também registar que o teatro é um espectáculo em que basta a mudança dos públicos que a ele assiste para se estar perante um espectáculodiferente, públicos esses que seguramente não teriam a mesma interpretação sobre o que acabaram de ver. O teatro é um espectáculo que, para se concretizar, exige uma rigorosa investigação e posterior experimentação, até pela consciência que se deve ter de que se trata de uma arte em que a sua necessária unidade está permanentemente ameaçada, e a sua História, para ser rigorosa, também não deve deixar de registar estes aspectos.

Alguns historiadores de teatro podem ser tentados a escrever uma História sobre o Teatro, e não uma História do Teatro, registando apenas a acção dos seus génios, para o que não faltarão exemplos ilustrativos; no entanto, a História do Teatro não é feita apenas destes génios, há que registar os que eu apelido de obreiros, sejam autores, encenadores, actores, musicólogos, técnicos das mais variadas especialidades, …, e que em Portugal, como naturalmente em outros países, são os mais esquecidos. Falemos de um: Armando Caldas.

 II

«Teatro: Livro dos que não têm livros», escreveu Almeida Garrett, e, se não fossem os tais obreiros como Armando Caldas, muitos portugueses não teriam acesso a tal «Livro», cabendo aqui uma referência ao teatro de amadores, muito pujante em Portugal nos anos que antecederam e se seguiram ao 25 de Abril de 1974 e agora quase em extinção, extinção esta que reforça a valia do trabalho de alguns resistentes como o Armando.

Conheci o Armando há mais de 50 anos, numa visita que o Teatro Moderno de Lisboa fez a Torres Vedras, sendo ele, para além de um dos fundadores da que foi a primeira companhia de teatro profissional independente, formada por actores, um dos que compunham o elenco da companhia.

Depois, acompanhei à distância a sua acção na fundação, em 1969, do 1.º Acto Clube de Teatro, em Algés, num espaço concebido pelo Nuno Teotónio Pereira, onde se realizaram, seu principal objectivo, muitosespectáculos de teatro, para os seus cerca de 3.000 sócios e público em geral, dando a conhecer autores como Jean Anouilh, Georg Buchner, Grangeio Crespo, OswaldoDragun, Eugéne Ionesco, Almada Negreiros e outros, também espectáculos de música coral pela Academia dos Amadores de Música, dirigido por Fernando Lopes Graça, de música clássica, de jazz, de música popular portuguesa, com o Zeca Afonso, o Adriano Correia de Oliveira e o Carlos Paredes, nomeadamente. Era também um espaço aonde se deslocavam grupos de teatro profissional na procura de variados públicos.

Imagem6Quando em 1985, já com os sonhos do 25 de Abril a não terem concretização, tentou o Armando, com outros companheiros, dinamizar de novo o teatro no 1.º Acto, ao que a Direcção do Clube resistiu, não aceitando –ou temendo?- o retomar daquela actividade, dando origem ao 1.º Acto (Autónomo), depois ao 1.º Acto (Marginalizados) e, por fim, ao Intervalo Grupo de Teatro, sempre com o Armando Caldas na primeira fila do combate, grupo este há já muitos anos sediado no Auditório Municipal Lourdes Norberto, em Linda-a-Velha.

No passado mês de Fevereiro pude assistir ali à estreia do 93.º espectáculo, em 49 anos de actividade, contando com a acção desenvolvida no 1.º Acto Clube de Teatro. É obra e exemplo único em Portugal! Pode classificar-se como efémera a arte do espectáculo de teatro, mas já o mesmo não pode dizer-se da acção de Armando Caldas. Muitas histórias que com ele vivi neste longo percurso de mais de 5 décadas poderiam ser contadas, mas as mesmas não cabem aqui, já que o objectivo que hoje me move neste escrito é lembrar este exemplo de resistente que é o Armando, na esperança de que muitos outros possam replicar noutros pontos do país acções semelhantes, proporcionando aos vários públicos o acesso «aos diversos domínios da actividade artística, concorrendo para a promoção da qualidade de vida, da cidadania e da qualificação das populações», como se pode ler num dos vários decretos produzidos pelos governos no pós-25 de Abril, decreto-lei esse onde também se pode ler que é necessário «descentralizar e dinamizar a oferta cultural, corrigindo as assimetrias regionais, e promover a actividade artística como instrumento de desenvolvimento económico e de qualificação, inclusão e coesão social», determinações essas esquecidas, sobretudo agora, por quem nos tem (des)governado, o que demonstra bem a necessidade de homens resistentes como o meu amigo Armando Caldas.

 

Portela (de Sacavém), 2015-03-

One comment

  1. Elisangila Raisa Silva dos Santos

    Lindo este seu olhar, eu adoro interpretar. Sou atriz de teatro aqui na Guiné-Bissau há mais de 10 anos, mas é muito difícil ser atriz aqui, temos falta de lugares apropriados para apresentação das peças, lugares para ensaio. Eu digo graças a Deus porque agora trabalho no Centro Cultural Brasil Guiné-Bissau que dá ao nosso grupo um apoio enorme. Este dia é muito importante para todo o mundo, todos somos os atores da vida. Este dia deve e tem que ser de muita reflexão e de renovação da nossa luta e do nosso compromisso para com o publico.

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