III
Jesus, mal avistou o bom velhote, abriu-lhe os braços e, ao sentir-se apertado àquele peito onde reside toda a verdade e toda a bondade, Matias viu-se nessa hora consolado e compensado de quantos e difíceis trabalhos na vida tivera para ser sempre uma alma simples e uma pessoa de bem.
Cresceu-lhe no coração uma grande alegria e ficou, desde logo, convencido de que não deixaria de ser atendido desta vez e conseguir enfim o desejo do sr. prior e das boas devotas de S. Gonçalo.
Explicou-se, repetiu a história que já tinha contado quatro vezes e ficou, muito animado, à espera da decisão.
Porém Jesus, pondo-lhe no ombro uma mão fraterna, acabou por lhe dizer, com um olhar velado de tristeza:
– Matias, deveras sinto não poder ser-te agradável, mas vou dizer-te uma coisa que te peço não repitas para não desconsolar aquelas almas que ainda de Mim esperam. Os homens já não me interessam… Desci outrora à terra para os salvar, trataram-me mal, com sempre tratam aqueles que só cuidam de lhes fazer bem; mas isso seria o menos. Flagelaram-me, coroaram-me de espinhos, crucificaram-me, cravaram-me no peito uma lança, chegaram-me aos lábios que pediam água uma esponja embebida em fel e, por fim, jogaram-me a túnica aos dados; mas tudo isso, repito, não seria nada. Os homens de então não me conheciam e Eu vinha fazer um mundo novo. O que me separa dos homens de hoje é que, depois das minhas doutrinas se terem imposto pelo meu sacrifício e pelo sangue dos mártires, quando elas deviam ser, com a redenção de seculares escravidões, a orientação dos corações e dos espíritos, o consolo dos tristes e o amparo dos humildes, os homens, só escutando a voz dos seus piores instintos e do seu mais feroz egoísmo, as deixem falsear e desvirtuar a cada passo por certos especuladores e traficantes que Eu expulsaria do templo, se lá voltasse… Que se avenham, pois, uns com os outros, que se devorem, que me neguem cada dia e me esqueçam totalmente, como Eu quero esquecê-los. Hás de ter notado, Matias, que, há muito tempo e principalmente nestes últimos anos, não tenho olhado nada por aquela humanidade…
– E bastante falta lhe tem feito, meu Senhor, pois só do céu, com Vossa licença, podia vir o remédio aos muitos males que a afligem…
– Pois, enquanto estiver amuado com a Terra escusam de me falar nos homens. Não merecem, na sua parte, que se lhes ligue importância. Tu és dos poucos que me entendem e a quem prometi o Reino dos Céus. Como vês, não te faltei. Deixa-te por aí estar, vai gozando esta bem-aventurança e não te incomodes com aquela gente, que não vale a pena…
– Mas é que eu tinha prometido ao senhor prior…
Jesus, vendo a desolação de Matias e, no fundo, tendo ainda um fraco por esta triste súcia de ingratos e de cegos que nós somos, pensou um bocado e disse por fim:
– Olha Matias. Fala ao Espírito Santo, que não tem nada que fazer senão andar por aí pairando.
O Matias foi correndo à cata do Espírito Santo. O terceiro elemento da Santíssima Trindade andava, sob a sua forma tradicional de pomba, esvoaçando pelas celestes paragens, e, quando o solicitante conseguiu que ele pousasse um instante para o ouvir, Matias recomeçou a sua história pela quinta vez, rematando-a com a seguinte gracinha:
– … Ora, como no meu país todos mais ou menos se deixam levar por espírito santo de orelha, não lhe custaria nada ir lá baixo e dizer ao ouvido daquele governador civil teimoso qualquer coisa a nosso favor.
– Livra, meu amigo! – atalhou o Espírito Santo, sacudindo as asas. – Com aquela gente não quero nada. Deus Padre me livre de tornar a andar nas bocas do mundo.
– Como assim? – perguntou o Matias
– É como te digo. Acima de tudo o que mais me irrita contra a Terra, onde não espero voltar, é a má língua de que tenho sido vítima…
– Ora essa? Que me conste… – interrompeu o nosso amigo, que não percebia nada.
– Ainda queres pior? Fui lá uma vez e com pouca demora. Ia de pássaro, como agora me estás vendo. Pois nasceu Jesus e ainda hoje por lá se diz à boca cheia que foi por obra e graça minha… Safa, que já é ter má língua.
O Espírito Santo bateu as asas, o Matias desistiu e aqui têm V. Ex.as porque não haverá tão cedo na tal aldeia a procissão de S. Gonçalo.
7 de Janeiro de 1923

