CONTOS & CRÓNICAS – “Requiem pelos fiéis defuntos” (I) – por António Sales
carlosloures
homenagem aos mortos que foram bons em vida
O comboio é um jazigo.
Os mortos abandonam-se na cadência truca-truca das rodas. Vestem todos pelo mesmo figurino e habitam a mesma expressão. Apertam-se. O torpor embala as consciências.
A frescura da manhã passa pela rama das árvores. As casas, encasteladas, apresentam-se brilhantes à luz transparente da atmosfera. A vegetação rasteira dos campos sacode de si o orvalho da madrugada. As aves brincam e os animais cabriolam na terra húmida. Um aroma de sensualidades desconhecidas agita-se. A caminho da cidade cemitério as carruagens são cenários de espectros rangendo nas dobradiças.
As dobradiças da urna de Belizário Tadeu não rangem. A madeira é mogno e o mogno exige dobradiças de qualidade. Esticou com sessenta e oito anos: três fábricas, dois estabelecimentos de pronto-a-vestir, vinte e nove prédios de rendimento, acções em companhias fortes, cinco amantes e milhares de contos acumulados nos bancos. Ao todo oito mil e quatrocentas pessoas faziam a felicidade de Belizário Tadeu.
O revisor é canhoto, pica os bilhetes com o alicatezinho seguro na mão esquerda. O revisor tem olhos glabros, nariz curto e largo, pálpebras pregueadas pela idade; a testa é baixa, as orelhas grandes e desprendidas como abanos, os lábios grossos estão ornamentados por um bigode antigo, a expressão é ausente e o gesto mecânico. Bom dia! O passageiro estende o bilhete ou o passe. Obrigado! Bom dia! Pica. Obrigado! À noite, no fim da jornada, os revisores de fardas lustrosas regressam a casa com as marmitas do almoço repousadas debaixo dos bancos. Cabeceiam ou conversam num tom fatigado e carregado de amargura. Como será a vida de um revisor que passa o dia pedindo bilhetes, marcando bilhetes, devolvendo bilhetes? Bom dia! Pica. Obrigado! Fazem isto todos os dias durante semanas, todas as semanas durante meses, todos os meses durante anos. Eu sou casado e tenho uma filha, gasto cento e cinquenta escudos por mês em livros, compro discos, revistas, loção para o cabelo, desodorizante para os sovacos e “after-shave” para amaciar a pele da cara; vou ao cinema uma vez por semana com a minha mulher e gozo com a família um mês de férias na praia.
E os revisores de cor castanha?
Viajo os meus olhos sonolentos pelos seus outros de fadiga e desencanto e sinto como é difícil estabelecermos as pontes do entendimento. Apetece-me a estação de Sintra orvalhada de noite e ali sentado perguntar-lhes quantos filhos, quantas doenças, quanto de renda de casa, quantas velhices esmoladas. Amaria deixar crescer as palavras que limitam os caminhos da ambição e ouvir, ouvir, ouvir. Ouvir suas torturas, suas lutas, suas dores, suas revoltas, seus ódios, seus sonhos, suas esperanças, seus desesperos por um destino adverso (Belizário Tadeu com urna de mogno e missa de corpo presente, auto-fúnebre de primeira e cento e vinte e dois automóveis no funeral. Os heróis da histórias repousam os seus feitos nas páginas dos livros para conhecimento e contemplação das criancinhas). Correríamos pela noite dentro num galope de secretas confissões, indo atrás do destino com os olhos tricotados de lágrimas e as bocas gretadas por palavras duras.
O comboio avança a passo. A manhã aquenta-se, dócil, no regaço da terra. As estradas incham de veículos que patinham como osgas. As pessoas, aflitas, consultam os relógios. A nevrose colectiva aproxima-se.
Lumelino de Figueiredo desprezava os relógios. Quando o inquiriam sobre a razão daquela indiferença respondia, invariavelmente, que o tempo era um factor relativo na vida das pessoas e, como tal, não se dignava elegê-lo príncipe quanto mais rei. Lumelino era modesto e tímido, solteiro e só. Nutria pelo dinheiro um visceral desdém e jamais a vaidade, a inveja, a ambição do poder o estimularam a correr na vida. Ardilosamente procurava escapar-se à tragédia da existência edificada sobre uma enorme base de coisas inúteis. Sua clara consciência da realidade amargurava-lhe as horas e impunha-lhe a ruptura com o destino.