CONTOS & CRÓNICAS – “MAIS UMA NOITE COMPLICADA DE MAURÍCIO VILAR” – por João Machado

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Pois, caro amigo, aqui estou eu após mais um dia difícil. E uma noite ainda pior. Pouco antes das onze, depois de verificar que a Heloísa dormia profundamente em frente à televisão, e ter baixado um pouco o som (quando passam os anúncios aumenta sempre um pouco, e há o risco de ela acordar), saí muito devagar, subi a escada até ao andar de cima, empurrei suavemente a porta que estava encostada, e entrei em casa da D. Henriqueta. A Maria Antónia estava sentada à entrada, no escuro. O ressonar da patroa era muito forte, como sempre, e nós fomos até ao quarto do fundo. Entrámos, e ela fechou a porta. Mandou-me sentar na cama, e saiu-me com esta conversa:

– Esteja quieto com as mãos. Não pensa noutra coisa. Saiu-me cá um santinho… Com esse ar de menino sério, quer truca-truca a toda a hora. Mas esta noite temos coisas muito graves para tratar. Não há tempo para os seus gozos. Tenho aqui um grande sarilho.

Fiquei apavorado. Pensei logo numa intrigalhadadas vizinhas. Ou seria que a Maria Antónia, tão sabida, se tinha distraído, e estava … é isso mesmo que está a pensar. Mas não dei parte de fraco e consegui perguntar com uma voz muito tranquila:

– Que aconteceu? A D. Henriqueta está pior? – confesso que na altura a saúde da senhora  parecia-me um problema menor. Acredite que até gosto bastante dela, e que tenho a impressão de que ela ajudou a minha mãe muitas vezes.

– Felizmente não. Mas eu, mesmo agora, recebi um telefonema da D. Generosa, que me pediu por tudo que não acordar a irmã. Ligou-me para o telemóvel, que eu tenho sempre com o som muito baixo, aqui no quarto, em vez de ligar para o fixo, e apesar de não gostar de telemóveis. Disse-me que há bocado apareceu-lhe um indivíduo na pensão, que lhe pediu um quarto para a noite. Estava sozinho, nem olhou para as raparigas que estavam na sala, e subiu logo. A D. Generosa diz que na altura teve a ideia de que já o tinha visto, mas não se lembrava nem onde, nem quando. Mas uma hora depois, já passava das dez, o homem desceu e perguntou-lhe onde ficava a Rua de Santo Ambrósio. Ela explicou-lhe e ele saiu de seguida. Só passados uns dez minutos é que ela se lembrou de quem ele é: um irmão da D. Josefa da mercearia, que esteve preso por fazer uns desfalques. Deve ter saído da cadeia e vem à procura da irmã. A D. Generosa ficou assustada e pensou em prevenir a Josefa. Eu não tenho o telefone dela, não quero acordar a D. Henriqueta de maneira nenhuma, nem deixá-la. Mauricinho, vai prevenir a senhora!

– Eu?

– Pois sim, Mauricinho. O menino mesmo. Se acudir direitinho à senhora D. Josefa, aqui a Toninha depois faz-lhe um tratinho especial. Vá lá. Sem barulho, para não acordar a D. Henriqueta.

Ainda protestei molemente, mas o facto é que um minuto depois descia a escada, passava na minha casa a buscar a chave da porta da rua e ia lestamente à minha missão.Verifiquei que aminha mãe, felizmente, continuava a dormir muito sossegada, confortavelmenterecostada no sofá, sem ver um filme cómico que passava na televisão, com um rapaz loiro a olhar embevecido para uma jovem esbelta que cantava e dançava animadamente, sem dar por ele. Desci a escada, abri a porta da rua com a chave (a nossa rua ás vezes tem visitas estranhas a altas horas), fechei-a cuidadosamente, e fui rua abaixo, até à porta do prédio da D. Josefa. Também estava fechada à chave, e não se distinguiam bem as campainhas, porque o candeeiro mais próximo estava apagado. Olhei para baixo e para cima e confirmei que não vinha ninguém na rua. Atravessei para o passeio oposto para ver se avistava luz no segundo andar, onde mora a nossa merceeira. Havia efectivamente luz numa das janelas. Ganhei coragem, voltei a atravessar a rua, explorei as campainhas com as pontas dos dedos, e calculei qual seria a do segundo andar. Toquei. Ao fim e ao cabo, não era assim tão tarde, pensava eu. Mas tive que esperar vários minutos.

Vi um homem a descer a escada. Reconheci-o, era o Sr. Bráulio, o marido da D. Josefa, que é funcionário da CP. Abriu a porta e perguntou-me:

– Maurício, o que faz aqui a esta hora? Ainda pensámos que não devíamos abrir a porta, mas a Josefa foi espreitar à janela, e viu-o no passeio em frente a olhar para as nossas janelas…

– É que tenho um recado urgente para a sua senhora.

– Suba. – Fechou a porta á chave e lá fomos até ao segundo andar. A D. Josefa esperava-nos. Enquanto o Sr. Bráulio já vestia um roupão, ela estava como se acabasse de chegar da mercearia, situada no mesmo prédio. Cumprimentou-me com simpatia. Expliquei ao que vinha, ajeitando a história para parecer que tinha falado com a Toninha à porta da minha casa. A D. Josefa e o marido ficaram muito preocupados.

– Não sabia que o meu irmão já tinha saído. – disse pausadamente. – Ele escreveu-me há uns dois meses a perguntar se podia passar por aqui, antes de voltar para a nossa terra, e eu respondi que sim, mas que não o podia ter alojado aqui, por causa dos nossos filhos. Ele respondeu que não tinha importância porque podia ficar alojado numa pensão.

– Então ele ainda não vos contactou?

– Pois não. Se calhar saiu para dar uma volta, que ele gosta da vida nocturna. Foi por gastar tanto na pândega que acabou a fazer o desfalque.

Senti que, sendo tarde, o melhor a fazer era despedir-me. Assim o fiz, tendo o casal agradecido muito o recado. Saí rapidamente e fui para casa. Subi as escadas silenciosamente até ao quarto andar e voltei a empurrar a porta. A Maria Antónia conduziu-me ao quarto, onde me fez apresentar o relatório da minha diligência. Entretanto, a D. Henriqueta ressonava. O “tratinho” prometido é que ficou adiado, não fosse a Heloísa acordar.

É tarde, e não quero fazer a minha mãe esperar. Já tem o jantar pronto. Amanhã, escrevo-lhe a contar o que se passou hoje. Temos animação na rua.

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