Jorge Barreto Xavier, secretário de estado da cultura, no passado dia 7 de Abril, na entrega do Grande Prémio do Romance e Novela APE/DGLAB, declarou à vencedora, Alexandra Lucas Coelho, que devia estar grata ao governo deste país pelo prémio que estava a receber. Isto em resposta ao discurso da escritora, em que esta afirmou, entre outras coisas, que gostaria de dizer ao presidente da república que o país não é dele, nem do governo do seu partido. Também disse que não deve nada a este último. Mas leiam o discurso da autora de A Noite Roda, neste link:
Jorge Barreto Xavier também terá acusado, já em privado, Alexandra Lucas Coelho de primarismo. Se lerem o discurso não a acharão nada primária, entendendo este termo como se aplicando a uma pessoa rude, que fala sem pensar no que diz, partindo apenas das suas emoções, enfim com o sentido que usualmente se lhe dá. Neste caso concreto podemos concordar ou não com o que Alexandra Lucas Coelho diz, ou interrogar-nos sobre o real significado de algumas das suas experiências, mas quem escreve aquele discurso é uma pessoa elaborada. Frontal, sem dúvida, mas primária não. Barreto Xavier não sabia o que responder e disparou. Também declarou na sua resposta que a escritora devia agradecer por estar a viver em democracia. Pois, isso sem dúvida que é melhor do que viver em ditadura, mas uma das razões é porque assim podemos falar frontalmente com as pessoas, incluindo as dos escalões mais altos (sobretudo essas…) e dizer-lhes o que pensamos sobre elas, ou sobre outros assuntos delicados. Se não for assim, o que será democracia? E a quem acha Barreto Xavier que se deve endereçar os agradecimentos? Ao Salgueiro Maia, ao Otelo? É duvidoso que estivesse a pensar nos capitães de Abril quando fez a afirmação.
Antigamente, o pessoal afecto ao regime, em épocas de maior agitação, recomendava que mandassem os contestatários embora, isto é, que fossem expulsos da terra onde nasceram. O facto é que a emigração foi uma opção de vida para muitos portugueses, forçados pelas más condições de vida. E continua a ser, hoje em dia. Embora, o governo, incluindo Barreto Xavier, diga que nunca aconselhou ninguém a emigrar. A verdade é que, quando alguém se sente obrigado a emigrar, pela miséria ou para não ter de ir à guerra, sente também que lhe estão a tirar alguma coisa.