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A UCRÂNIA – DA ECONOMIA À GEOPOLÍTICA – por JÚLIO MARQUES MOTA

Parte II
(conclusão)

Sem comentários, quanto ao texto agora apresentado.

Vista agora pelo lado europeu a problemática belicista de Obama:

“O governo espanhol aceitou que as bases de Rota (Cádis) e Morón de la Frontera (Sevilha) sejam reforçadas. Em Rota será instalado um centro naval do escudo antimísseis da NATO enquanto que em Morón será recebida a força expedicionária dos marines (850 marines) com toda a sua logística, dado que Obama afirmou que Móron seria o lugar a partir do qual os EUA poderiam empreender operações em África. Em Rota, já terão chegado – de acordo com o sítio elespiadigital.com – o Donald Cook, seguidamente virá o Ross e, em 2015, o Carney e o Porter . Estes quatro navios manterão 5.000 pessoais (Militares, civis e famílias) em permanência .

No imediato, resultam encargos suplementares para o Estado espanhol que paga toda a estrutura de vigilância e de protecção destas bases, e cujos serviços de informação bem como os dados sobre a sua população vão passar para as mãos da NATO e dos Estados Unidos. Como então criar um eixo de civilização Paris-Berlim-Moscovo quando os exércitos estrangeiros instalam as suas bases de mísseis dirigidos principalmente contra a Rússia?”

Quanto á Europa anda agora a pedir esmola aos chineses para que se não aproximem mais ainda da Rússia. Como o assinala um outro artigo de Zerohedge:

“Os dirigentes europeus estão a procurar aproveitar a viagem inaugural do presidente chinês Xi Jinping à Europa para conseguirem ganhar o seu apoio sobre a crise na Ucrânia, mas o líder chinês não tem dado até agora nenhum sinal que a diplomacia terá um qualquer sucesso em introduzir uma distanciação da China para com o seu parceiro estratégico a Rússia.

Num discurso proferido na quinta-feira, em que se comemora o 50º aniversário dos laços diplomáticos da China para com a França, o Presidente Xi deu uma ideia das suas posições em política externa com as grandes declarações, citando a opinião de Napoleão Bonaparte de que China era “um leão a dormir” que iria agitar o mundo quando despertasse.

“Hoje, o leão está acordado, é calmo, simpático e civilizado,” disse o Presidente Xi .

 Desde o início, contudo, a crise da Ucrânia tem pairado no ar aquando da visita milimetricamente preparada do Presidente Xi.

Os dirigentes da política europeia procuraram ver como uma vitória diplomática a decisão da China em se abster ao votar no Conselho de Segurança das Nações Unidas um texto em que se condena um referendo que abria o caminho para a Crimeia romper com a Ucrânia e de se ir juntar à Rússia

Mas isto seria uma mudança total quando eles mesmos consideram que é improvável que a China venha a dar o seu apoio a uma posição ‘contra’ a Rússia…

Em particular, os diplomatas europeus admitem que as relações da China com a Rússia permanecem sólidas.”

Mas a miopia ocidental é total e por duas razões. Primeiro, ao perderem toda a credibilidade no plano interno e no plano externo, reforçando por essa via o apoio popular ao ditador Putine  e enfraquecendo a base popular na própria  Europa para a sua política externa. Por essa via ficam a  perder importância no Mundo e para lá mesmo das grandes potências. Em segundo lugar, ao rasgar  os acordos conseguidos entre a Ucrânia, a Rússia e a EU, a União Europeia, da mesma forma que os americanos e com isso  levarem depois grupos nazis ao poder, dão um bom exemplo, mais um acrescente-se, da forma como encaram o Direito Internacional e por essa via geram ainda um maior clima de desconfiança relativamente ao que existia anteriormente para com as outras potências. Se dúvidas houvesse ainda, o que se passou na Ucrânia é semelhante a que os americanos apoiem uns bandos de nazis no Canadá, que os ajudem a tomar o poder e reconheçam esse mesmo governo com clara violação de todas as leis até aí existentes, mesmo até a Constituição. Depois que se calem quando esse mesmo governo venha a proibir a língua francesa em todo o Canadá, incluindo o Quebec. Como é que os franceses se sentiriam, então? Que credibilidade reconheceriam os franceses a uma potência que fizesse isto no Canadá? Que credibilidade pode ter alguém que funciona assim ? Como querem depois fazer da China um aliado quando este se apercebe que depois pode-lhe acontecer exactamente o mesmo, uma vez que para o Ocidente deixa de haver princípios na ordem internacional. Na costas dos outros, nas da Rússia, vimos as nossas, pensarão os chineses. Por essa via reforçam então os laços China e Rússia contra o Ocidente.  Creio que é já neste contexto que  pode ser vista a visita do Presidente Putin à China no próximo mês de Maio, onde poderá ser assinado uma acordo  em grande escala sobre o gás.

Na série de textos que iremos apresentar há um texto de Zerohedge que é a reprodução da campanha de guerra que se faz actualmente na Ucrânia e que vale a pena ler por isso mesmo. Trata-se da recolha e divulgação de informações publicadas na Ucrânia “ as Dmitry Tymchuk – a widely read Ukrainian so clearly he has his own bias but is instrumental in understanding the Ukraine perspective which currently the most irrational and thus unpredictable- explains on his blog, there is “good news and bad news.””

A leitura das boas e más notícias na óptica de Dmitry Tymchuk que nos dão uma imagem do clima belicista que se está perigosamente a criar, leva-nos a considerar de leitura obrigatória o texto do antigo Ministro dos Negócios Estrangeiros da França,    Hubert Védrine,  Cinco propostas para saír da crise ucraniana, mas sobretudo o texto  de Jacques Sapir incluído nesta colecção e com o qual finalizamos a presente série de textos, onde se diz:

“(…) a crise ucraniana está bem longe se se poder considerar terminada. Esta governo [ o governo actual de Kiev], de facto, acaba, de resto, de anunciar a constituição “de uma guarda nacional” na qual são agrupadas os bandos armados, e que substituir-se-ia ao Exército Ucraniano, de que se compreendem as suas reticências em intervir nesta situação. Face aos bandos armados da extrema-direita ucraniana constituem-se já grupos de auto-defesa. A lógica da confrontação está em marcha, e esta lógica já matou. À termo, se não se tomar cuidado, será contra uma situação como a que se viveu na Jugoslávia que nos iremos defrontar.”

Entretanto os planos de austeridade estão já a chegar a Kiev e tudo aponta para que acontecimentos dramáticos se venham proximamente a passar, se com as eleições europeias deixarmos que a mesma clique hedionda continue a pegar nas rédeas com as quais se pretende dirigir os destinos da União Europeia. Como assinala a Reuters:

“The IMF’s two most recent programs with Ukraine went off track because of the previous governments’ failure to follow through with politically difficult measures such as raising gas prices, which the IMF said was necessary to put the government’s finances in order.

But Kiev on Wednesday said it would raise the price of energy for domestic consumers by more than 50 percent from May 1, seen as a gesture to secure the IMF package. The country’s prime minister has said his government was on a “kamikaze” mission to take painful decisions.”

Augura-se portanto para a Ucrânia o mesmo trajecto que tem sido imposto a Portugal, a Espanha, a Itália, à Grécia, a Chipre, a Malta, à Letónia, à Irlanda, e na calha estão já a França, cujos resultados eleitorais de ontem são já elucidativos[1], a Eslovénia igualmente, país este em que no dia em que o governo eleito caiu na Ucrânia esteve ele sob forte pressão de manifestações de rua contra a austeridade e em que nada disto se disse em Portugal, que eu saiba, está na calha igualmente a Holanda, o país onde a dívida das famílias é a mais elevada na Europa e a Finlândia a perceber, agora que o problema lhes bate à porta, que os países não se aguentam num quadro recessivo global com opções cornelianas como se impõe a partir de Bruxelas e como eles próprios exigiram aos outros.

É preciso inverter a marcha até aqui imposta e seguida nesta nossa Europa, o que só pode ser feito por gente capaz de imaginar os novos trilhos a percorrer no quadro das economias de que é necessário e urgente levar a cabo a sua respectiva des-globalização. Trabalhos de Hércules, trabalhos que só podem ser levados a bom porto se inseridos num projecto colectivo, num projecto europeu. Desse ponto de vista, então até Maio próximo.

A série é composta e enumerada pelos seguintes artigos:

  1. Entrevista a Paul Craig Roberts sobre a Crimeia, a política estrangeira americana e a transformação dos media, concedida a Harrison Samphir para Truthout.

2. Joachim Becker: A União Europeia na Ucrânia: a ignorar os factos geopolíticos e económicos.

3. A Rússia no mau lado da História.

4. A Ucrânia dos não-ditos que interpelam

5. Eyes Wide Shut- As mentiras e as verdades sobre a Ucrânia

6. Putin mete-me medo ….é tempo de dizer a verdade sobre  o abominável novo Czar do Kremlin.

7. O Ocidente está desesperado a querer quebrar a ligação Rússia-China

8. Quanto à Rússia, a América anda a disparar tiros sobre o seu próprio pé.

9. Entretanto, dezenas de milhares de tropas russas juntam-se nas fronteiras

10. Cinco propostas para sair da crise ucraniana

11. Ucrânia : responsabilidade e irresponsabilidades

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[1] Elucidativo é também o facto de que, depois de uma derrota histórica devida à  política de direita que foi seguida por Hollande, este responda a seguir com a nomeação de um primeiro ministro ainda mais à direita do que o anterior! Tudo se passe como se a Europa viva cativa da política de austeridade, e neste caso a punição terá sido dada porque a austeridade não teria sido a suficiente. Tudo isto a fazer lembrar  os residentes da canção de Hotel Califórnia dos Eagles: A lembrar no fundo a letra da canção Califórnia Hotel dos Eagles :

‘We are all just prisoners here, of our own device’

And in the master’s chambers, /They gathered for the feast /The stab it with their steely knives,

But they just can’t kill the beast

Last thing I remember, I was/Running for the door/I had to find the passage back/To the place I was before /’Relax,’ said the night man,/ We are programmed to receive./You can checkout any time you like, /but you can never leave!

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Para ler a Parte I deste texto de Júlio Marques Mota, publicado ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:

A UCRÂNIA – DA ECONOMIA À GEOPOLÍTICA – por JÚLIO MARQUES MOTA

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