A porta já quase não abre. Transposta a soleira, sobe-se as escadas iluminadas por uma janela com as portadas abertas para entrar a luz do sol ou o claro-escuro da noite.
A casa está vazia, despojada, solta de recordações ou saudade. Mesmo a memória está delida nas paredes brancas. Algumas aranhas tecem teias aqui e ali num recanto ou no vão de uma escada. Para além de uma ou outra hera que se infiltra numa nesga e se põe à janela a espreitar, são estes os novos habitantes da casa, à venda.
Num canto, resta apenas o toucador no quarto que fora o seu. Ali ficou à espera que o fossem buscar como recordação de dias dourados.
Nos fins-de-semana, alternando com os passados na família dela, ali pernoitavam com os filhos para consolo dos avós.
Em cima do toucador, repousava o retrato dos filhos e um outro pequenino, o primeiro que ela lhe oferecera, emoldurado em tartaruga. Uma fita branca no cabelo deixava a testa a descoberto.
Sentada no banquinho, penteava-se, na contemplação da frescura da sua cara e do brilho do seu cabelo. Ele abraçava-a. És linda. A imagem de ambos ficara ali gravada como num retrato em sépia.
São muito pálidas as recordações de dias de sol a apanhar borboletas com as crianças, no parque à beira do rio, a jogar às escondidas atrás das árvores seculares, imaginando gigantes ou anões por entre as sebes dos canteiros ou outras figurinhas dos livros de fantasia.
Vem pelo ar um cheirinho volátil ao assado da avó, ao arroz moreno feito no tacho de ferro, à marmelada muito seca das tigelas de barro e a cevada temperada com uma pitada de sal.
Ouve-se ainda o sotaque rude da gente da rua e o riso dos meninos a brincar, que falavam alto e abriam muito as vogais.
Passava depressa o fim-de-semana e a viagem ainda era longa. Quase sempre se apanhava o pôr-do-sol na travessia da serra. E contavam-se histórias para os meninos não adormecerem.
O toucador desaparafusado e o espelho embrulhado em cartão foram postos na mala do carro.
Pareceu olhar para trás e despedir-se da rua e de uma página da vida.
Agora no seu novo quarto, o toucador parece feliz com o retrato dos filhos e a fita branca na moldura de tartaruga.
O espelho, sabe-se lá por que sorte, não lhe mostra a cara enrugada, emoldurada pelos cabelos cobertos de réstias brancas.
Apenas o antigo retrato em sépia murmura ao longe És linda.