Site icon A Viagem dos Argonautas

OCIDENTE, UCRÂNIA, LESTE EUROPEU: UM TRIÂNGULO DE INCOMPATIBILIDADES INSTALADO – apresentação de uma série de pequenos textos- Por JÚLIO MARQUES MOTA

Falareconomia1

Há dias jantei na casa de uns amigos meus, onde o jantar corre pela noite adentro, até muito tarde e onde o tempo é ocupado por vivas discussões. No caso presente falou-se, discutiu-se a situação da Ucrânia. Manifestei o meu forte desagrado por tudo o que se estava a passar. Mantive a posição que a questão da Ucrânia é apenas a outra face da moeda da política da União Europeia, e representa o mesmo desastre, o mesmo desprezo pelas populações sobre que incidem e falo pois da política interna e externa da União. Da política interna sabemos nós já bem os resultados. Da política externa ou esta não existe ou, se existe, esta ronda o absurdo. Entretanto, observe-se que a Alemanha, crise após crise, vai refazendo a sua zona de influência, com um detalhe de importância, está a refazer a zona de influência dos tempos do Hitler. O trabalho sujo de tudo isto fica para outros, para a NATO, para os americanos e estes encarregaram-se de subcontratar outros países, como os polacos. Tem sido assim em toda a zona Leste da Europa, continua a ser assim ainda agora na Ucrânia. E com a Ucrânia a Alemanha fica mais uma vez a ganhar, fica com a mão-de-obra de qualidade e a preço do Sueste Asiático e disponível para o assalto às matérias-primas. Por outro lado, a desinflação competitiva alemã pode continuar a arrasar os seus parceiros europeus que se vão afundando numa montanha de dívidas e, depois, enredados em fortes políticas de austeridade estipuladas por Berlim. Os pobres não consomem os produtos alemães, portanto não há que ter problemas com isso.

O meu amigo vira-se para mim furioso e pergunta-me: não me diga que está a apoiar Putin? Sorri, e respondi-lhe que nunca apoiaria um governo composto por nazis (e no caso são um terço do governo ucraniano), que nunca apoiaria a queda de um governo feito naqueles moldes, com assassinos pagos a peso de ouro, os já famosos snipers que atiravam sobre a polícia e sobre aqueles que se manifestavam contra a polícia de modo a provocar um banho de sangue e o caos e temos dúvidas sobre o bando a quem americanos e europeus deram o poder, basta olhar para as primeiras medidas tomadas, entre as quais está a proibição de se falar russo, num pais em que uma enorme percentagem da população é a língua russa que fala, está a eliminação dos subsídios na extracção do carvão, sabendo que com isso iria atingir as zonas russófonas que já vivem miseravelmente da extracção de carvão. Quem semeia ventos só pode colher tempestades, diz o ditado popular. É o que está a acontecer agora em toda a zona leste. Outra coisa não seria de esperar, foi o que a União Europeia e os seus patrões americanos escreveram no vento muito antes de vir a tempestade.

Mas eu concordo com o que diz. Não concordo é que esteja do lado de Putin, diz-me este meu amigo!

A realidade neste caso é muito simples, não se pode discordar de um dado comportamento e querer que aqueles sobre quem incide este comportamento fiquem silenciosos, aguentem à maneira dos pacifistas!

Mas assim reacende-se o clima de guerra fria, diz-me. E a culpa é de Putin, com quem parece estar em acordo!

Aí levantei a voz. Então a União Europeia e os Estados Unidos não respeitaram NENHUM acordo assinado com os países de Leste e querem agora que confiem nas suas boas intenções? Depois, os erros nesta história da Ucrânia, sucedem-se uns atrás dos outros, a ultrapassagem do direito muito mais ainda, para não falar já dos direitos dos povos. E há aqui dois eixos de que mal se fala: o preço do gaz, o pagamento do gaz, e, quando chegar ao Verão, haverá as colheitas do trigo e a venda ou não venda desse trigo nos mercados mundiais. Quem vai alimentar toda essa gente e com esse trigo que não terão? Quem lhes vai pagar o gaz? Será o Presidente Obama?

Mas nunca lhe disse que sou defensor de Putin. O que digo é que no quadro das coordenadas nacionais, internacionais e histórias da região e da conjuntura internacional, Putin terá sido a personagem mais equilibrada durante a crise. Custa a dizê-lo, porque não tenho nada a ver com o sistema político a Leste, custa a dizê-lo, não pelo facto em si mas sim porque o desenrolar da crise para mim atesta a muito má qualidade dos outros intervenientes, que chega a raiar a demência ou a ignorância mais absoluta, havendo de comum entre estes uma profunda desonestidade intelectual e moral.

Não me diga que está a atacar Obama, perguntou-me. Claro, respondi. Então como é possível depois dos acontecimentos de Kiev não se ter levantado um inquérito aos incidentes de Maidan, como é possível que os snipers não tivessem sido identificados, presos e julgados? Como é possível, em vez disso falar em Democracia. Pior ainda, depois da gravação da conversa entre Victória Nuland e o embaixador Pyatt ser pública e desta ter confirmado a qualidade da gravação, como é possível que Obama fale ainda em Democracia como o eixo principal da sua política externa! Imagine-se então um golpe de estado nos Estados Unidos comandado do exterior, pela Rússia por exemplo, que derrube o governo e coloque um outro governo com 1/ 3 dos seus elementos membros afirmados da seita Ku Klux Klan. Alguém teria a coragem de dizer que isso era Democracia? Nem pensar, claro! E rematei, sabe, o Washington Post questiona-se agora sobre se tinha ou não o direito de colocar em dúvida a honestidade pessoal do Presidente Obama, afirmando num editorial que ele não era responsável pelos erros havidos nas opções militares mas que deveria ser obrigado a tirar as suas ilações, as consequências dos seus consentimentos. Deixe-me dizer que era a figura política que mais respeitava no xadrez político internacional. Dizem-me, pessoas que estão tão desiludidas como eu, que Obama é um político em fim-de-ciclo. Posto isso salvaguardar o programa ObamaCare e preparar o terreno para a vitória nas próximas eleições presidenciais de Hillary Clinton, parecem ser os seus únicos objectivos, custem estes o que custarem. As dívidas pessoais, essas, pagam-se . Mas para isso tem que segurar o centro-direita, e é o que está a fazer, nem que seja a Ucrânia o seu instrumento de referência .

E o meu amigo, rápido que nem um lince, disparou: mas então uma só pergunta: quem nos governa afinal.

Talvez os velhos generais do Pentágono que não saberão o que é Democracia, talvez os homens do NSA, talvez seja assim, respondi eu encerrando a discussão.

Por tudo isto, apresentamos uma série de textos sobre a Ucrânia, sobre o Leste e sobre o Ocidente, num triângulo de incompatibilidades que se não houver cuidado, se não nos opusermos massivamente à dinâmica belicista instalada poderão inelutavelmente conduzir à guerra, seja ela regional ou não. Daí a importância do tema daí a importância dos textos agora apresentados.

Os textos são os seguintes:

1. Como salvar a Europa, de Michel Lhomme, revista Metamag.

2. É necessário bombardear Moscovo, Revista Le Causeur.

3. A Ucrânia entre violência, guerra secreta e guerra dos media

4. 6 de Junho: quem tem medo do Exército Vermelho

 

 

Coimbra, 16 de Maio de 2014

Júlio Marques Mota

Exit mobile version