Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
3.Porque é que estamos numa nova era dourada
Sobre o livro Capital in the Twenty-First Century, de Thomas Piketty
Paul Krugman
Parte III
(CONTINUAÇÃO)
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Capital in the Twenty-First Century – é, como espero ter deixado claro, um trabalho espantoso. Numa altura em que a concentração de riqueza e rendimento nas mãos de uns poucos ressurgiu como uma questão política central, Piketty não só oferece uma inestimável documentação do que está a acontecer com incomparável profundidade histórica. Ele também nos expõe e nos explica o que equivale a um unificado corpo teórico sobre a desigualdade, que integra o crescimento económico, a distribuição de rendimento entre capital e trabalho e a distribuição de riqueza e rendimento entre os indivíduos, tudo isto num só quadro de análise.
E há ainda aqui uma coisa que diminui um pouco o alcance do valor do trabalho de Pickerty — uma espécie de prestidigitação intelectual, embora esta não envolva qualquer engano ou má-fé pela parte deste autor. Ainda assim, aqui está a explicação: a principal razão de um livro como este é um desejo ardente de explicar a ascensão, não só dos um por cento, mas especificamente dos um por cento americanos. Ainda que esse aumento, afinal, se tenha verificado por razões que estão além do objectivo da grande tese de Piketty..
Piketty é, claramente, muito bom e muito honesto como economista para não tentar encobrir factos inconvenientes. Em a “A desigualdade dos EUA em 2010,” ele declara, “é quantitativamente tão extrema tal como na velha Europa na primeira década do século XX, mas a estrutura desta desigualdade é evidentemente muito diferente.” Na verdade, o que já vimos na América e estamos a começar a ver noutros lugares é algo “radicalmente novo” — a ascensão dos “super-salários”.
O capital é ainda importante; para as pessoas de mais altos rendimentos da sociedade, os rendimentos de capital ainda excedem os rendimentos provenientes de salários, de remunerações e dos bónus. Piketty estima que a crescente desigualdade de rendimentos do capital é responsável por cerca de um terço do aumento total na desigualdade dos EUA. Mas os rendimentos salariais no topo também disparam. Os salários reais para a maioria de trabalhadores dos E.U., para aqueles que aumentaram, para a maioria estes aumentaram pouco desde o princípio dos anos 70 até agora, mas os salários dos um por cento mais elevados estes aumentaram de 165 por cento, enquanto os salários para os 0,1 por cento salários aumentaram 362%. Se Rastignac estivesse vivo hoje, Vautrin poderia admitir que, na verdade, que aquele tanto poderia casar com uma noiva rica como tornar-se um gestor de um hedge fund ( fundo financeiro especializado na especulação financeira).
O que explica este dramático aumento na desigualdade dos salários, com a parte de leão dos ganhos no rendimento a serem apropriados pela reduzida parte da população mais rica? Alguns economistas dos Estados Unidos sugerem que este dramático aumento resulta das mudanças tecnológicas. Num famoso texto de 1981 intitulado “The Economics of Superstars,” o economista Sherwin Rosen de Chicago argumentava que a tecnologia das modernas comunicações estendendo o alcance dos indivíduos talentosos, criava os mercados de tudo ou nada em que um punhado de indivíduos excepcionais alcançava recompensas enormes, mesmo se estes fossem apenas modestamente melhores no que fazem do que os seus concorrentes pagos a valores muito mais baixos.
Piketty é um céptico. Como ele sublinha, os economistas conservadores gostam de falar sobre os altos salários dos artistas de um tipo ou de outro, tais como das estrelas de cinema e de desporto, e isto como uma forma de sugerir que os rendimentos elevados são merecidos. Mas estas pessoas na verdade compõem apenas uma fracção minúscula dos ganhos obtidos pelas elites. O que se encontra, em vez disso, são principalmente os executivos de um tipo ou outro — pessoas cujo desempenho é, de facto, muito difícil de estabelecer ou mesmo de lhe atribuir um valor monetário como compensação.
Quem é que determina o que se deve pagar a um alto executivo de uma grande empresa? Normalmente há um comité que estipula as remunerações, nomeado pelo próprio executivo cujo rendimento está a ser estipulado. Com efeito, argumenta Piketty, os altos executivos definem eles os seus próprios salários, limitados apenas pelas normas sociais, ao invés de estarem sujitos a uma qualquer disciplina de mercado. E ele atribui-se a si mesmo remunerações a subirem em flecha e ao máximo devido à erosão destas normas sociais . Com efeito, os altos executivos sobem os seus rendimentos salariais ao nível do topo social e político ao invés destes serem determinados pelas forças económicas.
Agora, para sermos justos, Piketty então avança com uma possível explicação económica quanto à mudança destas normas, argumentando que a queda das taxas de tributação fiscal em vigor para os mais ricos têm encorajado ao aumento dos ganhos das elites. Quando um gestor de topo considera que o respeito dessas normas levaria a que apenas deva esperar receber uma pequena fracção dos rendimentos que pode poderá adquirir desprezando estas normas sociais e ganhando um salário muito elevado, este gestor poderá considerar que evitar o opróbrio não vale a pena. Ao cortar-se drasticamente na sua taxa de tributação marginal o gestor pode então comportar-se de forma diferente. E como há cada vez mais super-assalariados a desrespeitar as normas então são estas normas que devem mudar.
Há muito a ser dito quanto a este diagnóstico, mas claramente este não possui nem o rigor nem a universalidade da análise do Piketty sobre a distribuição e os seus efeitos sobre a riqueza. Além disso, também, não acho que o livro Capital in the Twenty-First Century responda adequadamente na sua critica à hipótese posta quanto ao poder dos altos executivos : a alta concentração de rendimentos muito elevados na finança, onde o desempenho pode, na verdade e depois de estar na moda, ser avaliada. Eu não mencionei os gestores de fundos de hedge à toa: tais pessoas são pagas com base na sua capacidade de atrair clientes e de obter fortes retornos de investimento. Pode-se questionar o valor social das finanças modernas, mas os Gordon Gekkos existem por alguma coisa e o seu aumento não pode ser atribuído exclusivamente às relações do poder, embora eu acho que se poderia argumentar que a vontade de se envolverem em comportamentos moralmente duvidosos e as suas remunerações, como a vontade de estarem nas tintas para as normas salariais, tudo sito é incentivado pelas baixas taxas de tributação marginais.
No geral, estou mais ou menos convencido pela explicação do Piketty quanto ao disparar da desigualdade salarial, apesar do seu fracasso em incluir a desregulamentação ser, do meu ponto de vista, uma decepção significativa. Mas como eu disse, à sua análise nesta matéria falta o rigor da sua análise sobre o capital, sem deixar mencionar a sua evidente elegância intelectual, altamente estimulante.
Mesmo aqui não devemos exagerar com isso. Considerando que o aumento na desigualdade dos Estados Unidos até à data tem sido impulsionado principalmente pelos rendimentos salariais, não podemos ignorar que a importância do capital, no entanto, também tem sido significativa. E, em todo o caso, é provável que a história, quando se olha para a frente, seja bastante diferente. A actual geração dos muito ricos na América pode ser constituída em grande parte pelos altos quadros empresariais, ao invés dos rentiers, pessoas que vivem fora do processo de acumulação de capital, mas estes altos quadros empresariais têm herdeiros. E a América , daqui a duas décadas pode ser uma sociedade dominada pelos rentiers e ser ainda mais desigual do que a Europa da Belle Époque
Mas isto não deve acontecer.
(continua)
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Para ler a Parte II deste trabalho de Paul Krugman, sobre o livro de Thomas Piketty, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:
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