A teoria de que o horror pode ser transformado em coisa normal, de que podemos considerar aceitável que seres humanos sejam eliminados em câmaras de gás ou torturados para confessar seja o que for, posta em tese por Hannah Arendt, mas tem sido comprovada numerosas vezes ao longo da História – durante a ditadura do Estado Novo, quando alguém era preso, era comum a sentença – «quem o mandou meter-se em trabalhos?». O mal pode ser banalizado, a estupidez e a cobardia podem ser elevadas à categoria de prudência e de sageza. É assim o homo sapiens.
Noam Chomsky elaborou uma incontornável lista das estratégias de manipulação usadas pelos meios de comunicação a favor dos poderes instalados – não os que aparentemente ocupam cargos, mas os que realmente mandam – os poderes fácticos. Não vamos aqui repetir o decálogo de Chomsky – na definição da última estratégia explica como, com o avanço da Ciência nas últimas décadas, sobretudo nos campos da biologia, da neuro – biologia e da psicologia aplicada, o sistema sabe mais sobre os indivíduos do que eles próprios.
Na realidade, a estrutura mental das pessoas não mudou tanto quanto evoluiu o conhecimento científico e os meios tecnológicos. Um homem comum que, usando a máquina do tempo de H. G. Wells, desembarcasse na Idade Média, não seria capaz de inventar fosse o que fosse – «A luz eléctrica? – carrega-se no interruptor!»…… «A televisão? . prime-se o botão On!»… O mais certo era ser queimado como bruxo ou contemplado com o barrete que identificava os loucos.
O conhecimento que o Poder adquiriu sobre o comportamento humano, quer o individual, quer o de massas, permite-lhe uma manipulação discreta, asséptica, democrática. Uma legião de profissionais – nas áreas da saúde e da comunicação social, amparam o funcionamento da máquina estruturante da nova Razão. Amanhã teremos por essa Europa fora um exemplo prático deste exercício, da eficácia da «harmonia» que este exercício da teoria dos reflexos condicionados permite. Como condenados à forca que fossem votar na corda de seda ou na de sisal, lá vamos todos escolher com que material o ar nos vai ser sonegado. A hipótese de escolhermos o ar puro nem sequer se coloca.