A banalização do mal e o axioma de Henry Ford, por Carlos Loures

 

 

 

 

Já aqui tive oportunidade de, mais de uma vez, ter referido a obra Eichmann in Jerusalem : A Report on the

Banality of Evil, Nova Iorque, 1963, de Hannah Arendt (1906-1975) a filósofa alemã, de ascendência judaica, e naturalizada norte-americana. A tese da banalização do mal, inteligentemente exposta por Arendt, demonstra que uma mudança de paradigma, convertendo a anormalidade em coisa corrente, pode transformar homens normais em monstros.

 

Um funcionário zeloso, metódico e competente, o homem que estava a montante de uma extensa cadeia de responsabilidades terá sido “vítima” dessa instauração do mal como moeda corrente na Alemanha de Hitler. A “solução final”, Endlösung der Judenfrage, foi a designação criada para o plano de genocídio sistemático. Adolf Eichmann parece ter sido o criador da expressão – partiam os nazis da premissa de que os judeus constituíam um problema endémico da sociedade europeia e que exterminá-los seria a solução desse problema.

 

 

Em 20 de Janeiro de 1942, na Villa Wannsee, um palacete debruçado sobre um lago a sudoeste de Berlim, foi tomada a decisão que conduziria ao Holocausto. O objectivo era estudar a maneira de erradicar definitivamente os judeus da sociedade alemã. Os maiores horrores, filtrados por expressões eufemísticas, assumiam um ar de normalidade. Calculados os judeus em onze milhões, foram meticulosamente estudados meios de «eliminar a praga» – Sendo eles sujeitos a «trabalho apropriado» (trabalho escravo e subnutrição em campos de concentração), calculou-se que uma elevada percentagem seria eliminada por «causas naturais», O remanescente seria tratado de forma adequada, pois se posto em liberdade seria semente de uma restauração hebraica. As pessoas de sangue misto não foram esquecidas.

 

Terá então Eichmann inventado a expressão «solução final». Entre o pessoal que servia à mesa destas diligentes

e metódicas criaturas havia um judeu que fixou a expressão. Azar de Eichmann. Nem terá sido ele o mais interventivo no processo. Por exemplo o médico Josef Buhler terá insistido com Reinhard Heydrich no sentido de levar a cabo a « solução final» como dissera, e muito bem, o camarada Eichmann. A questão judaica, tinha segundo Buhler de ser resolvida no curto prazo. As actas de reunião foram encontradas. Lá estava o louvor a Eichmann por ter encontrado uma expressão feliz para designar algo que a todos preocupava. A expressão «solução final» pôs a corda em torno do pescoço de Eichmann.

 

Ele teve um papel na concretização do plano de extermínio – tal como muitos outros – médicos, engenheiros que conceberam os fornos crematórios, químicos que trabalharam no gás fatal. Eichmann foi quem tudo organizou como funcionário competente e zeloso que era. Teria levado a cabo com igual eficiência uma operação de salvamento, uma operação de resgate de náufragos. Esta a tese de Arendt. Quando muda o paradigma numa sociedade e o que é monstruoso passa a ser normal, o mal banaliza-se, ninguém estranha e homens que normalmente seriam apenas bons funcionários, transformam-se em seres horrorosos.

 

O julgamento de Adolf Eichmann foi rodeado de grande mediatismo. Os grandes jornais de todo o mundo enviaram jornalistas. O governo israelita abriu as sessões do Tribunal ao públicos para cobrir as sessões que foram tornadas públicas pelo governo israelita. Hannah Arendt era a correspondente da revista The New Yorker e foi nessa qualidade que recolheu elementos para o seu livro. Além de crime contra o povo judeu, apesar de se ter declarado “Inocente no sentido das acusações”, Eichmann foi acusado de crimes contra a Humanidade, e de pertencer a um grupo organizado com fins criminosos. Foi condenado por todos os seus crimes e enforcado em 1962, nas proximidades de Telavive.

 

Arendt expendeu então a sua tese sobre a banalização do mal, dizendo ter sido a « pura ausência de pensamento que lhe permitiu transformar-se num dos maiores criminosos da sua época. É banal e até mesmo cómico: nem com a melhor boa vontade se conseguiria descobrir em Eichmann a mais pequena profundidade diabólica ou demoníaca», diz Hannah Arendt na obra citada. Por «ausência de pensamento» quer ele significar, inexistência de sentido critico que leva as pessoas a aceitarem como normais as maiores anormalidades. Não sei se no caso de Eichmann Arendt teria razão. Porém, vemos na nossa sociedade banalizarem-se situações anómalas.

 

Em Portugal, a ausência de pensamento, levou-nos durante 50 anos a aceitar uma ditadura fascista e leva agora pessoas inteligentes a aceitar como normais todas as anormalidades que transformam a nossa democracia representativa num novo fascismo – ou seja, numa oligarquia em que dando aos cidadãos o direito de escolher o faz segundo o célebre axioma de Henry Ford – até 1925 os modelos só estavam disponíveis na cor preta, que tinha secagem mais rápida. Daí surgiu a famosa frase: “Os clientes podem escolher qualquer cor, desde que seja preto”. Nós podemos escolher o governo que quisermos, desde que escolhamos entre a pior gente do PS ou do PSD, os empregados dos grandes grupos económicos e dos interesses do grande capital. Se acham que «banalização do mal» é exagerado, corrijo – é a banalização da estupidez. 

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