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EDITORIAL – NINGUÉM VOTOU EM MURÇA.

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Domingo passado, 25 de Maio, Murça boicotou as eleições europeias. Ninguém votou. Nenhum dos elementos nomeados para constituir as 17 mesas de voto distribuídas pelas 7 freguesias do concelho compareceu. Tornou-se impossível votar em todo o concelho. Segundo as informações veiculadas na comunicação social, esta ausência colectiva às mesas de voto foi preparada com uma antecedência de duas semanas. Um elemento da CNE – Comissão Nacional de Eleições afirmou não haver memória de um acontecimento semelhante, nas eleições anteriores. Já terão ocorrido boicotes muito participados noutros locais, mas nunca um concelho completo encerrou as suas mesas na totalidade, como ocorreu no domingo passado. Também segundo as informações, a população em peso concordou com a atitude. Mesmo que pessoas que foram votar e tiveram de voltar para trás, afirmaram compreender a posição tomada. Os links abaixo dão informações mais detalhadas.

Murça é um concelho do distrito de Vila Real, que contará com cerca de 6000 habitantes. A população, há cerca de meio século, ultrapassaria os 10000habitantes, mas a guerra colonial e o grande surto migratório deixaram as suas marcas. Actualmente, a população é mais reduzida e mais envelhecida. Entretanto o concelho tem sofrido a sua parte nos encerramentos maciços de serviços públicos, ordenados pelo poder central, a pretexto das políticas austeritárias, com destaque para o tribunal e extensões dos serviços de saúde. Agravam a situação a introdução de portagens na Autoestrada Transmontana, muito contribuindo para o isolamento das terras mais interiores, bem como a ameaça de encerramento do serviço local de finanças e da segurança social. O último link abaixo dá acesso a um texto da agência Lusa, incluído no blogue da Câmara Municipal de Murça, que resume a situação.

O isolamento progressivo de terras como Murça, detentora de um património histórico importantíssimo, é um golpe rudíssimo no nosso país. Situações como esta ocorrem em grande parte do nosso país. O povo de Murça é cioso da sua identidade e das suas tradições. Tal como em outros lados, os serviços públicos, escolas, serviços de saúde, tribunal, fazem parte da sua terra, estão lá para o apoiar, e tirar o apoio que esses serviços lhe dão, afecta-o e ofende-o. E como diz um eleitor: não estão ali só para pagar impostos e ficarem sem nada. Terão recusado a ideia de boicote às eleições europeias, mas querem deixar claro o seu protesto. Ao fim e ao cabo a participação na vida do país e na política nacional e internacional tem de ser vista por dois lados, e em dois sentidos. Medidas como as contidas na pseudo-reforma administrativa efectuada recentemente, apenas para massacrar as freguesias, as portagens nas autoestradas para estas ficarem sem carros, a extinção arbitrária e sem critério de serviços públicos, os cortes de salários e pensões para contentar banqueiros e burocratas, levam a este estado de coisas. As pessoas que estão nas suas terras têm de ser respeitadas e valorizadas. Para além do respeito pelos princípios, essencial para a vida comum, Portugal não se pode dar ao luxo de amputar faixas da população, e de abandonar parte do seu país.

 

http://www.publico.pt/sociedade/noticia/acessibilidades-ditam-boicotes-na-trofa-e-em-sintra-1637383

http://www.publico.pt/politica/noticia/murca-nao-quer-ser-so-lembrada-nas-eleicoes-nem-servir-so-para-pagar-impostos-1637403#/0

http://municipiodemurca.blogspot.pt/2014/05/nao-ha-eleicoes-em-todo-o-concelho-de.html

 

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