Ontem, domingo, 25 de Maio, houve eleições para o parlamento europeu. Dois terços dos eleitores não foram votar. Um terço foi. O PS foi o partido mais votado. Podem-se tirar muitas ilações sobre diversos aspectos, mas sem dúvida que o que merece maior reflexão é a elevada taxa de abstenção. Segundo as notícias, também foi alta noutros países. Mas mais alta do que em Portugal, só em países do leste, saídos do antigo bloco soviético. Também se deve assinalar que os votos brancos e nulos, somados, chegarão possivelmente a totalizar cerca de 7 por cento dos votos expressos.
No conjunto das nações europeias, a taxa de participação foi pouco superior a 43%. Deve-se chamar a atenção para que há países onde o voto é obrigatório, o que terá influência no cálculo geral. Alguns sentir-se-ão tentados a concluir que se trata de um sentimento generalizado de afastamento em relação às instituições europeias, e talvez mesmo em relação à ideia da União Europeia. Sem afastar essa hipótese, será melhor analisá-la a partir dos resultados definitivos.
Dois aspectos contudo serão de referir já. O primeiro é que a enorme taxa de abstenção enfraquece consideravelmente as eventuais equiparações destas eleições a um referendo para a manutenção ou o afastamento do poder do governo Passos/Portas. E, claro, afasta o cenário de eleições antecipadas, a pretexto dos resultados de ontem. O ar aliviado de Passos Coelho e de Paulo Portas na televisão mostra-o bem. E não parece oportuna a pretensão de Seguro, dirigida ontem ao Presidente da República, com esta base. O segundo, é de que é urgente uma reflexão nacional alargada sobre a permanência ou saída da União Europeia. Reflexão essa que seria nacional, em primeiro lugar, mas que, numa segunda fase poderia ser conjunta com entidades de outros países.


Conforme esclarecia Pedro Tadeu, do JN, na sua crónica do passado dia 20, segundo o censo de 2011, Portugal teria cerca de 10, 5 milhões de habitantes e 9,5 milhões de eleitores: uma percentagem de 90%!
Não somos os únicos bafejados com instituições incompetentes, havendo alguns casos similares na UE, mas a média europeia da relação eleitores/população anda pelos 76%, o que é um valor bastante aceitável, abarcando mesmo alguns desvios, em ambos os sentidos, que se justificam por circunstâncias peculiares de certos países.
Mas os tais 90% são uma impossibilidade, referida de vez em quando, mas esquecida quase sempre.
Se a esta aberração adicionarmos o enorme fluxo de emigração dos últimos anos, facilmente percebemos… que é impossível perceber se a abstenção aumentou, diminui ou estabilizou!
Há anos que nos despejam em cima números, cálculos e “interpretações” que partem de elucubrações ignorantes (e/ou oportunistas) sobre dados demasiado arredios da realidade.
Considero que a participação cívica, no nosso país (e noutros, muitos outros!) está longe de ser satisfatória. Mas, quando a distorção destes dados básicos é de tal dimensão, parece-me difícil chegar a conclusões rigorosas, através de uma análise séria, ainda que tenha em conta esse importante pormenor. É que, além de outros “desvios”, o facto de a abstenção em Portugal ser provavelmente muito menor do que é avaliado pode significar que os portugueses estarão bem mais próximos da “média europeia”, integrando-se, afinal, numa atitude mais global, que traduz a geral insatisfação dos povos pelos caminhos transviados que a UE empreendeu, subjugados os poderes dos Estados por interesses minoritários, afastando-se de um projecto que só pode ter êxito se for assumido pela maioria dos cidadãos, em nome deles e em prol do seu bem-estar. Isto é, o pretenso alheamento dos eleitores portugueses não se deve a quaisquer características idiossincráticas que há quem se entretenha a atribuir-lhe e que os diminuam face a outros povos bem comportados, assaz conscientes e alinhadinhos (basta ver os “bons exemplos, nestas eleições, de franceses, austríacos, dinamarqueses e etcs.), antes traduz um movimento semelhante ao de outros povos, que se expressa por modos diversos e, como se verifica, nem sempre no melhor sentido, já que políticos desonestos, jornalistas ignorantes (os tais “simpatizantes” que, há anos, Baptista-Bastos assinalou) e gestores de “media” se cumpliciam na imbecilização das “audiências” e convergem na preparação do terreno onde florescem os populismos de extrema-direita cujos perigos já foram ampla e tragicamente demonstrados pela História recente.