Carmen Maria Albornoz Serralta Hurtado é da região da campanha do Rio Grande do Sul, de Santana do Livramento, cidade contígua à Rivera, no Uruguai. Professora do ensino fundamental, de formação, cursou Conservatório de Música em Rivera, tendo concluído seus estudos de piano. Nos anos 60 frequentou aulas sobre Elementos da Linguagem Musical com o compositor e professor gaúcho Bruno Kiefer e de História da Música com o professor, musicólogo e colaborador de Villa Lobos, Adhemar da Nóbrega. Participou do curso de Interpretação Musical com o professor e pianista carioca Arnaldo Estrella, referência, à época, como educador e intérprete; também recebeu aulas de Interpretação Pianística com o professor Guilherme Halfeld Fontainha da Escola Nacional de Música do Rio de Janeiro. Em 1974, em Paris, seguiu curso de Filosofia da Arte, “Formes et Forces”, com René Huyghe – professor do “Collège de France”, curador do museu do Louvre e Membro da Academia Francesa de Letras. Em sua cidade, onde reside, foi promotora cultural e empresária de artes plásticas – sócia da galeria Ponto d’Arte (1984/1989). Exerceu a curadoria da “Coleção – Maluh de Ouro Preto” pertencente ao museu de artes Aspes-Urcamp (1990/1995). Integra o grupo da Aliança Francesa que recebeu Menção Especial no Concurso Internacional Paroles de Lecteurs organizado pela TV5 e Cavilan da França, em 2001. Faz parte do grupo Club de Lectoras, que em 2002 aderiu ao Projeto Fronteiras Culturais organizado por Maria Helena Martins (Centro de Estudos de Literatura e Psicanálise Cyro Martins, de Porto Alegre). Tradutora das línguas espanhola, francesa e inglesa ao português. É membro efetivo da Academia Santanense de Letras desde 2006.
Abas do Livro
Um jovem poeta argentino passa férias em casa de uma prima e de seu marido escritor, em uma localidade da fronteira entre o Uruguai e o Brasil. Nos anos trinta do século passado, a paisagem agreste intocada, o vasto horizonte desértico, os homens rústicos, isso basta, e algo de bárbaro perturba a emoção do jovem acostumado às cidades do Prata. Quando hospedeiro e hóspede vão a um café, a fortuna os aguarda sob a forma da morte e do crime, e deles faz testemunhas de um assassinato grotesco. Nas páginas ímpares da narrativa sutil tecida pela sensibilidade da autora Carmen Maria Serralta, tem-se a impressão de acompanhar o cenário de um conto, que de fato viria a existir em mil folhas de relatos posteriores, e tudo aparentemente seria um sonho, não fora que o então jovem poeta se tornasse um dia o mito Jorge Luis Borges, muito real homem do mundo do nosso tempo, fato que a autora nos apresenta com a graça de uma escritora de ficção.
Por outro lado, em linguagem correta e elegante, ao apresentar pela primeira vez, ou reapresentar com novo olhar, essa passagem de experiência que – a autora o prova – criaria laços permanentes do escritor com esse recanto do pampa que é a fronteira do Brasil com o Uruguai, através da visita a Santana do Livramento em 1934, Carmen Maria, de modo consciente e erudito, providencia uma contribuição importante para os estudiosos da literatura latinoamericana, em especial aos estudiosos brasileiros de Borges, entre os quais muitas vezes se apresentam as duas visitas do escritor maduro a São Paulo como as únicas do célebre autor ao Brasil.
Além disso, é evidente, a lente que reproduz o cenário e o evento, em busca da verdadeira relação de um com o outro, além de inspirada e séria, é uma lente amorosa, onde se expressa o amor pelo cenário histórico e geográfico, assim como a admiração pelo escritor que o sofre. O mesmo olhar mostra a paisagem desértica como campina cheia de encanto, como caminho de emas etéreas e de silenciosos cavaleiros, que apenas se distinguem da Coxilha Negra. Por isso, pode-se dizer sem medo de exagerar que esse livro, breve e belo, enquanto contribui para o conhecimento no domínio dos estudos próprios, também expressa, em movimentos líricos, a terra natal da autora – terra que, estou certa, sentir-se-á homenageada.