ROMANCE DO CHÃO VERMELHO (III), de ARMINDO RODRIGUES
joaompmachado
Romance do chão vermelho (III), de Armindo Rodrigues
(1904 – 1993)
Aqui. a terra é de carne. Apetece-me mordê-la. Aqui, o céu é de chumbo e esmaga o certo e o incerto. Aqui, o vento é opaco e tem as asas de lume. Aqui, as árvores traçam rumos de destino errado. Aqui, as vozes são secas e as decisões pertinazes. Aqui, o sol entontece e enche o ar de zumbidos. Aqui, há cepos de lobo, armados contra os ladrões. Aqui, os ladrões maiores podem roubar livremente, sob a protecção das leis, pois são eles quem as faz. Aqui, o pão e o vinho só faltam a quem os lavra. Aqui, as estradas apontam do princípio para o fim das distâncias e dos sonhos, com piteiras cor de greda e girassóis de papel nas recordações magoadas.