Romance do chão vermelho (III), de Armindo Rodrigues

Aqui. a terra é de carne.
Apetece-me mordê-la.
Aqui, o céu é de chumbo
e esmaga o certo e o incerto.
Aqui, o vento é opaco
e tem as asas de lume.
Aqui, as árvores traçam
rumos de destino errado.
Aqui, as vozes são secas
e as decisões pertinazes.
Aqui, o sol entontece
e enche o ar de zumbidos.
Aqui, há cepos de lobo,
armados contra os ladrões.
Aqui, os ladrões maiores
podem roubar livremente,
sob a protecção das leis,
pois são eles quem as faz.
Aqui, o pão e o vinho
só faltam a quem os lavra.
Aqui, as estradas apontam
do princípio para o fim
das distâncias e dos sonhos,
com piteiras cor de greda
e girassóis de papel
nas recordações magoadas.

