
Na calada da noite de 16 de dezembro de 1773, no porto de Boston, Massachussets, uma das treze colônias inglesas da América, algumas dezenas de homens, disfarçados de índios, tomaram de assalto três navios ingleses, jogando ao mar sua carga de 342 caixas de chá.
A ação direta foi então ironicamente chamada de tea party, a festa do chá. Tornou-se um marco na luta que os americanos travavam contra a pretensão da metrópole inglesa de fixar taxas sem o seu prévio consentimento. Diziam os colonos: não aceitaremos impostos sem que sejam previamente aprovados por representantes eleitos por nós mesmos. A reação não se fez esperar. Encadearam-se represálias, mais leis repressivas. Contudo, os revoltosos não se intimidaram. Fez-se uma guerra, de que resultou a independência do país, em 1776.
Gravada na história ficou a festa do Chá, um elo importante, épico e debochado, da luta pela liberdade, contra a dominação estrangeira e o arbítrio do Estado. Uma bela festa – é sempre uma festa quando os seres humanos resolvem exercitar o direito à revolta.
Em 2009, na sequência da crise econômico-financeira que assolou o mundo, provocada pelos descalabros do liberalismo triunfante, surgiu nos Estados Unidos um movimento politico que vem tentando capturar para si o histórico acontecimento. Autodenominou-se Tea Party e seus líderes legitimaram a escolha – esperta – do nome, associando-se à luta pela liberdade, contra o Estado.
Quem são e o que pensam os partidários da versão atual do Tea Party?
Pesquisa recente, empreendida pela CBS News e pelo New York Times, chegou a evidências interessantes.
A grande maioria é de brancos, maiores de 45 anos e homens. Dizem-se conservadores e religiosos. Mais de metade tem uma arma em casa. Grande parte se diz “aborrecida” com as coisas que se passam em Washington, e quase todos (92%) pensam que os Estados Unidos estão num caminho errado. Desaprovam a gestão de Barak Obama na Presidência da República, porque tem expandido demais o papel do Estado. Assim pensam 89% dos entrevistados. A desaprovação estende-se ao Congresso. Apenas 1% considera que os deputados e os senadores estão fazendo um bom trabalho.
Indagados porque exatamente não gostam do presidente, quase 20% responderam que não gostam porque não gostam. Outros disseram que é porque Obama está levando o país para o socialismo, ou pelas reformas que aprovou em relação ao sistema de saúde, ou simplesmente porque é desonesto. Só um entre cinco pensa que o presidente compartilha os valores americanos. Quase 30% estão certos que Obama não nasceu nos EUA, apesar das provas em sentido contrário.
Também se queixam das regalias concedidas a não brancos e a imigrantes, avaliando que já há igualdade de oportunidades para todos, e que, aliás, já se fez muito pelos negros. Ampla maioria julga que a imigração ilegal é um problema maior.
Mas os partidários da atual versão do Tea Party não gostam de ser chamados de racistas. Ano passado, responderam com truculência a uma crítica da moderada Associação Nacional para o Progresso das Pessoas de Cor/NAACP. A organização negra apenas solicitou que o Tea Party se demarcasse das declarações e ações de conhecidos militantes racistas em seu interior. Ou que assumisse suas responsabilidades. Recebeu, em troca, uma chuva de insultos: os críticos não passavam de “pescadores profissionais de problemas raciais”, que “ganhavam mais dinheiro com o assunto do que os traficantes de escravos”. Enquanto isto, a seção do Tea Party do norte de Iowa elaborou um poster em que Barak Obama e Adolf Hitler aparecem como equivalentes. Mark Williams, personagem notório do partido, permitiu-se dizer, entre outras pérolas, que os muçulmanos são “bípedes primatas”, e por isso não teriam “o direito de reivindicar serem tratados como humanos”.
O Tea Party tem resgatado outro símbolo do passado: uma bandeira criada por Christopher Gadsden, líder sulista na luta pela independência do país. Num fundo amarelo, destaca-se uma cascavel enroscada, a cabeça empinada, a língua de fora, pronta para morder. Embaixo, um lema: “Não pise em mim”. Chris Whitten, pesquisador da matéria, sustenta que a cobra, de afiados olhos, era considerada um símbolo de vigilância. “Não ataca mas, uma vez na luta, nunca se rende”. O Claremont Institute sustenta que a cascavel é um símbolo de convicções. De fato, o pendão tem mais adeptos do que se possa imaginar. Depois do atentado às torres gêmeas, em 2001, os navios de guerra estadunidenses passaram a arvorá-lo, modificado, como bandeira de proa: a cobra agora se estende num fundo de treze listras vermelhas e brancas, uma homenagem às colônias que iniciaram a guerra da independência.
É um exemplo, entre muitos outros, do alcance das propostas do Tea Party e da forma como trabalha com a memória, reconstruindo-a, envenenando-a. Faz lembrar a Inquisição, que invocava Jesus Cristo para torturar. Ou os nazistas, que associavam a bravura dos antigos guerreiros germânicos às suas assustadoras tropas de choque. Ou os stalinistas, que invocavam Marx para construir campos de concentração.
Tais ideias e atitudes, conforme evidenciadas pela pesquisa, marcam, cada vez mais, a atmosfera política dos EUA, não sendo exagero afirmar que a elas podem ser atribuídos, em boa medida, os recuos impostos à ação reformista de Barak Obama.
O Tea Party, sempre agressivo, já contaminou o horizonte politico do país, arrastando-o para a direita. Mas quem imaginar que esta onda poderá ser detida com recuo e conciliação, deve lembrar-se da cascavel: “uma vez na luta, nunca se rende”.
Daniel Aarão Reis
Professor de História Contemporânea da UFF
Email: aaraoreis.daniel@gmail.com

