Site icon A Viagem dos Argonautas

SOBERANISTAS DE TODOS OS PARTIDOS… UMA CONVERSA COM DOIS EURO-REALISTAS DO PS E DA UMP – por DAVID DESGOUILLES – I

Falareconomia1 Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

Soberanistas de todos os partidos … Uma conversa com dois euro-realistas do PS e de UMP

David Desgouilles, Souverainistes de tous les partis…Entretien avec deux «euroréalistes» du PS et de l’UMP

 Revista Causeur, 13 de Novembro de 2014

Guillaume Lelong é um membro do Partido Socialista e Thomas Ménagé milita na UMP, depois de participarem na Manifestação Para Todos. Ambos estão entre os quatro co-presidentes do Colectivo “Jovens Euro-realistas” que reagrupa soberanistas de direita e esquerda, que se opõem à  Europa de Bruxelas.

Os senhores  lançaram na semana passada, o movimento “Jovens Euro-realistas” na companhia de outros activistas políticos, publicando uma Tribuna em Marianne intitulada “Saídos da geração Maastricht, queremos quebrar o tabu Europeu”. Qual é o significado desta iniciativa?

Guillaume Lelong: Em primeiro lugar, não se trata de um movimento porque não temos nenhuma vocação para fundar um partido político. É uma associação que nasceu das redes sociais, que é  transpartidária e queremo-la como destinada a aprofundar o debate sobre a questão europeia na esfera pública, pois que , para além dos partidos terem monopolizado o tema porque outros tiveram medo de o tratar, também, e é importante, temos de procurar ver que consensos podem ser trabalhados entre os diferentes níveis de soberanistas. Com efeito, embora pessoalmente eu gostasse da Tripla saída, da UE, do Euro e da NATO (ou pelo menos do seu comando), esta não é a situação de todos os fundadores, muito longe disso! Cabe à nossa geração, a geração de Maastricht, de se apropriar desses temas para contribuir para o repensar de um projecto francês na base de princípios fundamentais. Os discursos políticos actuais não têm uma base ideológica e intelectual. Onde é que está a questão da independência da França? Que Europa é que nós queremos? Será necessária a cooperação bilateral com os países do mundo inteiro ou a manutenção de uma parceria privilegiada (de que tenho a tendência para qualificar  “ de paixão na violência “) através de uma estrutura supranacional muito menos invasiva do que a UE?

Estes debates terão lugar na Internet, mas também através de conferências tanto nacionais em Paris, como locais, no movimento emergente de correntes de educação popular.

Thomas Ménagé: A criação desta associação nasceu de um dado muito simples: a ausência total de um debate sobre a Europa aquando das últimas eleições europeias. Seguidamente desejamos reunirmo-nos entre jovens de todos os horizontes,  a fim de pôr fim à lei de silêncio dos nossos políticos face aos graves problemas que conhecemos  e dos quais uma grande parte está ligada a  esta recusa de um debate de fundo sobre a Europa.

A associação concretamente quer-se que seja uma plataforma de reflexão e de trocas de ideias. Os membros, graças nossos ao sítio,  poderão informar-se, reflectir e escrever. Para esse efeito certos dossiers temáticos serão apenas disponíveis para os nossos membros a fim de alimentar um verdadeiro debate de ideias. A associação quer-se sobretudo participativa. Anunciaremos em breve datas de conferências e de reuniões para debate, o que permitirá aos membros que a nós se têm já juntado de nos encontrarmos em redor de pessoas reconhecidas a fim de trocar opiniões sobre diferentes temas.

A principal crítica que vos foi dirigida, é a de “terem ignorado conscientemente uma larga maioria do eleitorado soberanista”. Esta objecção, compreenderam-na, emana da Frente nacional. De certa maneira, este censura não tem ela fundamento?

TM: A nossa associação não tem em nenhum caso vocação para  estar a criticar a FN, nem mesmo de andar a falar nela. Não existe nenhum combate pessoal contra os seus militantes e os seus simpatizantes. Tomamos conhecimento do comunicado da Frente nacional, mas, pela nossa metodologia, quisemos unir jovens de esquerda e de direita. Este ajuntamento não se podia fazer com este partido que não reagrupa as pessoas e teria tido como único efeito dividir ou então de a FN  se apropriar,  mais uma vez, do monopólio da crítica à União Europeia. A Frente nacional permanece um meio hoje de assimilação do euro-cepticismo à extrema direita e aos valores identitários. Não é que desejamos defender e não são os nossos valores.

GL: Não ignoramos este eleitorado e a prazo será necessário que se reflicta sobre a maneira como poderemos fazê-los participar no debate. Mas pusemos voluntariamente de lado certas instituições partidárias que monopolizam mediaticamente estes temas para mostrar explicitamente que cabe a cada um poder criticar livremente a construção europeia e o seu princípio, sem necessariamente estar a ser assimilado a um partido político em especial e a todas as suas práticas e objectivos relativos seja relativamente às questões identitárias ou da imigração. É tanto mais assim,  quanto estamos nas vésperas dos Congressos a realizar pelos partidos políticos franceses e para os incitar a pegar nestes temas e quebrar o tabu europeu. Um início de reflexão sobre estes temas com uma  verdadeira  honestidade intelectual que faça contraponto à a religiosidade eurobeata e será, para a França, um constituinte primário para um novo projecto nacional que hoje praticamente não existe : os discursos das estrelinhas da política não se tornaram eles muito ocos?

Pessoalmente, sei que à esquerda a crítica é forte mas subterrânea. Arnaud Montebourg não obteve 17% nas primárias cidadãs em 2012 com um programa de desmundialização pela operação do Santo-Espírito! Contudo, a ligação nas investiduras e nos lugares de colaboradores dissuade mais do que uma pessoa  de se exprimir publicamente. A deslocação das malhas territoriais da esquerda devida às derrotas súbitas aquando deste mandato presidencial de cinco anos – e a vir – mostra que é chegada a altura de redistribuir as cartas.

O caso de Arnaud Montebourg é interessante. Este nunca pôs em causa o euro mas simplesmente considerou urgente a necessidade de um certo proteccionismo europeu, por um lado, durante a primária socialista, e apelou a uma confrontação com a Alemanha sobre a gestão do euro, que lhe valeu graves aborrecimentos este Verão. Este exemplo demonstra que o colocar em causa a moeda europeia permanece um tabu difícil de ultrapassar. Do mesmo modo, de outro lado do tabuleiro de xadrez político, Henri Guaino é qualificado de soberanista mas deseja a manutenção da moeda europeia. A dissolução do euro é ela objecto de um consenso na vossa associação?

GL: É verdade  que Arnaud Montebourg não se focalizou sobre o escalão nacional. Ele apostou fortemente que a tepidez das suas propostas em 2011 que parecem similares às que propõe hoje o movimento Nouvelle Donne, (expressão francesa par New Deal) fossem pensadas na época de modo a não abanar um eleitorado de esquerda que se esqueceu de que o internacionalismo não impõe obrigatoriamente que se partilhe a sua soberania com os seus vizinhos. Os factos são o que são, obstinados, e põem cada vez mais em evidência, pela aplicação de tratados de livre-troca com os Estados Unidos,  Canadá ou com o Vietname, que a UE é intrinsecamente livre-cambista. O princípio da realidade não nos chama ele rapidamente à ordem quando se tenta desesperadamente pôr em prática uma nova UE que se quereria proteger da mundialização, enquanto que esta aloja no seu seio um paraíso fiscal do qual, o seu antigo primeiro ministro é hoje presidente da Comissão? É necessário também recordar que Martin Schulz, candidato a este lugar e apresentado como de esquerda, nunca deixou de ser favorável ao tratado transatlântico durante toda a campanha, excepto na última semana. Se Montebourg ascender ao primeiro plano da cena política, ouso esperar que terá a coragem das suas convicções e que irá até à fim último do seu raciocínio, ou então, sem isso  ele terá muita dificuldade em convencer os eleitores. Deverá pôr sobre a mesa a questão do Euro de maneira honesta e sem dúvida tomar consciência que as meias tintas não são uma boa aposta quando os interesses dos países europeus divergem a este nível. O caso Guaino parece-me bem mais complexo. Espero que poderemos contar com ele aquando de uma conferência de modo a que venha partilhar connosco a sua reflexão e explicar-nos como é que se pode ser soberanista permanecendo ao mesmo tempo de pés e mãos ligados à governança económica comum que impõe a moeda única. Entretanto, a dissolução não faz consenso no seio da associação, mas podemos discutir livremente sem que nos passem a chamar de reaccionários e de procurar encontrar a prazo, espero, uma posição comum a este respeito.

(continua)

________

Texto original disponível em :

http://www.causeur.fr/souverainistes-de-tous-les-partis%E2%80%A6-30181.html

Exit mobile version