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A CANETA MÁGICA – PARABÉNS MANOEL! Manoel de Oliveira comemora os seus 106 anos, estreando um novo filme: “O Velho do Restelo” – por Carlos Loures

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 Manoel de Oliveira comemora hoje 106 anos e a celebração é feita com a estreia em Portugal do seu mais recente filme, O Velho do Restelo, e a exibição de três curtas-metragens: Douro, Faina Fluvial (1931), O Pintor e a Cidade (1956), Painéis de São Vicente de Fora – Visão Poética (2010). O filme O Velho do Restelo, com argumento do próprio realizador, é baseado em excerto de O Penitente, de Teixeira de Pascoaes. Teve estreia mundial a 2 de Setembro deste ano, no Festival Internacional de Cinema de Veneza, tendo passado até hoje por festivais em Toronto, Nova Iorque, São Paulo e Viena. E chega hoje às salas portuguesas, ao Cinema Ideal, em Lisboa, e ao Teatro Rivoli, no Porto,. Será depois exibido  por todo o país. Decano mundial dos cineastas, Manoel de Oliveira, vencedor de um Leão de Ouro de carreira em Veneza, em 2004, reúne neste novo filme, num banco de jardim do século XXI, personagens históricas e escritores  como Dom Quixote, Luís Vaz de Camões, Teixeira de Pascoaes, Camilo Castelo Branco…

Recentemente, numa entrevista à revista norte-americana “Variety”, Manoel de Oliveira descreveu o seu novo filme como uma «reflexão sobre a humanidade». Há anos atrás, numa entrevista dada ao El País, a propósito da estreia em Espanha de «Singularidades de uma Rapariga Loira», com o entusiasmo de um jovem explicou o porquê da escolha – «O filósofo Spinoza dizia que nos julgamos livres porque ignoramos que os nossos actos são comandados pelas mais obscuras forças. Ortega y Gasset, que de dia para dia mais me agrada, fala do homem e da sua circunstância. Isto define o que penso da paixão».

Em 1931, Manoel de Oliveira realizou «Douro, Faina Fluvial» e, desde então, nunca mais parou. Sei que não estou sozinho quando digo que esse primeiro filme e «Aniki-Bobó» me agradaram muito. Cineclubista, sócio do Imagem, vi esses dois filmes muitas dezenas de vezes.  E acabo de os rever. Voltou a emocionar-me a poesia que transcorre do seu realismo, como água fresca e límpida jorrando de uma fonte. Se não gosto tanto de alguns dos filmes mais recentes o mal só pode ser meu – se o mundo do cinema tece os maiores elogios, se os «Cahiers du cinema» consideram Oliveira um dos maiores cineastas da actualidade, só posso estar errado quando prefiro o «Douro» ao «Amor de Perdição» ou o «Aniki» ao «Vale Abraão». Errado, sobretudo, porque estou a falar de coisas diferentes, de épocas diferentes, de estéticas diferentes e, principalmente, de dois homens diferentes, um jovem de vinte e poucos anos e um ancião com mais de cem. Errado, porque habituado a uma gramática de imagens de raiz hollywoodesca, não estou habituado à lentidão narrativa dos cineastas europeus, de que Oliveira é emérito mestre. Mas não queria que a minha grande admiração pela sua figura me impedisse de ser sincero.  Manoel de Oliveira não precisa. Até porque a minha opinião, em termos de cinema, vale o que vale; ou seja, quase nada.

Aliás, esta insistência em que a primeira obra de um autor é sempre a melhor, faz-me lembrar a tortura da personagem de uma novela de Somerset Maugham que, escritor já idoso, premiado e louvado pela crítica, continuava refém do seu livrinho de estreia, um conto escrito aos 20 anos, que muitos consideravam a sua melhor obra. Não é isso que se passa com Oliveira. É óbvio que os seus filmes mais recentes, com grande actores e com meios com que há 80 anos nem se sonhava, correspondem a um outro patamar da realização cinematográfica.

Em todo o caso, não podemos deixar de, a partir daquelas obras iniciais, traçar linhas de perspectiva que, nos poderiam ter dado um cinema mais ligado às realidades do nosso País e da nossa época. Mas é evidente que Manoel de Oliveira escolheu explorar uma parte mais íntima e intemporal do ser humano, aquela que alimenta os sonhos e os pesadelos do nosso universo interior. E respeita-se e saúda-se essa escolha que o eleva à condição de grande entre os grandes do universo cinematográfico. De resto, com estas palavras de sincera admiração, não quero sequer esboçar uma crítica, favorável ou desfavorável, à obra do nosso cineasta mais universal. Estas palavras destinam-se apenas a homenagear uma das figuras mais importantes da nossa cultura.

Quando na entrevista ao El País, o jornalista notou sobre a secretária de Oliveira um folheto onde se explicavam as vantagens da Internet. Questionado sobre o tema, o cineasta respondeu: «Não sei se a Internet é boa. A vida moderna aumenta a capacidade mecânica sem melhorar a habilidade do homem. Antes cultivava-se a memória…» (…)«Pense nos grandes exploradores, como Cristóvão Colombo» (…) «Sem computadores, baseando-se no seu intelecto».

É de salientar um pormenor – dos cerca de 30 títulos que constituem a sua filmografia, 10 foram realizados até 1990 e mais de 20 de então para cá. Isto significa que dois terços da sua obra correspondem a uma altura em que ultrapassara os 80 anos. Uma idade em que a maioria das pessoas deixa de ter projectos e vive de memórias. E continua a trabalhar. Aos 101 anos, disse: «Se paro de filmar, morro». Foi há cinco anos, não parou e hoje comemora 106!

Parabéns Manoel!

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