Site icon A Viagem dos Argonautas

RANKING PARA QUE TE QUERO por Luísa Lobão Moniz

Comecemos pelo início do ano escolar, as matrículas.

Os rankings têm sido um bom utensílio para concentrar bons alunos em determinada escola e os menos bons noutra. Os encarregados de educação pensam que podem matricular os alunos na escola que mais desejam, mas são as escolas que fazem a “selecção”. As escolas, quando a podem fazer, estão a pensar no resultado do  ranking concentrando o seu trabalho na preparação dos seus alunos para os exames, ou seja, para a colocação da Escola numa pauta de exame.

As pautas de exame, às escolas, partem com a omissão de variáveis que não podem ser descartadas para os rascunhos.

Como é avaliado o ambiente escolar, o sentimento de pertença à escola, como é avaliada a relação interpessoal dos alunos, como é avaliada a estabilidade do corpo docente, o processo de ensino aprendizagem das Turmas”* . Mais, por exemplo, a situação sócio económica do agregado familiar, a motivação dos alunos, das famílias e do corpo docente?

Estes itens não são fáceis de medir. A elaboração de um processo de medição, destes e de outros itens, pressupunha uma outra Escola, uma Escola em que os alunos são sentidos como pessoas plurais e não unas.

A vertente das competências sociais está esquecida, o que importa é classificar pela Matemática e pela Língua Portuguesa.

Senhor Ministro da Educação e Ciência, o tempo em que a selecção dos alunos era feita nos exames da 4ª classe e de admissão aos liceus, já acabou.

Quase tal como dantes, a Escola manda aprender decorando em determinadas disciplinas, as que vão ser sujeitas a exame, as outras tanto faz.

Quase tal como dantes, a Escola faz com que alguns alunos recorram a explicações para os exames, na altura para a admissão aos liceus.

Portugal é o único país da Europa em que se faz exame no 4º ano de escolaridade!

O que se quer provar no 4º ano de escolaridade. Penso que nada a não ser “enquadrar” os melhores alunos para seguirem a escolaridade obrigatória e depois para a faculdade e “enquadrar” os outros alunos e ir pensando na alternativa profissionalizante. O que é que isto faz lembrar?

Será que os alunos das escolas pior classificadas teriam o mesmo desempenho se frequentassem as escolas melhor classificadas?

Será que os alunos que vivem em bairros desfavorecidos em termos habitacionais, em termos do desemprego, de violência e de maus tratos se vivessem com a dignidade a que têm direito, teriam melhor desempenho escolar e melhores competências sociais?

“Será que os alunos cuja Língua Portuguesa não é a sua Língua Materna se fazem compreender pelos outros, será que se a Escola tivesse em consideração as diversas formas de comunicação de todos os alunos, estes teriam melhor desempenho escolar?”*

Alguns alunos, cuja Língua Materna é o Português, apresentam, também, grandes diferenças em relação ao padrão da Língua Portuguesa.

Será que estas diferenças são contempladas?

No ensino particular estas questões não se põem porque os alunos têm as mesmas referências linguísticas, vivem em condições favoráveis para o seu crescimento”.* É claro que também há alunos com problemas afectivos, mas esses vão ao psicólogo pago pelos pais.

Uma escola elitista não pode servir a Democracia, onde há lugar para todos.

Uma escola elitista não pode servir a Democracia porque não é inclusiva.

Uma escola elitista não pode servir a Democracia porque ela própria não é democrática.

Não esquecer que na Constituição Portuguesa está contemplado o ensino obrigatório!

Quem deu aulas numa escola privada e na escola pública sabe bem que assim é.

É tão importante saber como o aluno entra na escola a nível das competências sociais, da comunicação, dos saberes já adquiridos, como vai crescendo e elaborando a sua relação com o conhecimento, como aplica e partilha esse conhecimento, qual o seu contributo para o bem-estar do outro.

Nada disto está no ranking, está, apenas, a nota que o aluno teve em determinada disciplina. Decorado ou não, não tem importância, o que importa são os rankings para que as escolas bem sucedidas recebam mais benesses do MEC enquanto que as escolas que ficam abaixo da média lá continuarão. Vão ter problemas na colocação dos professores, vão ser consideradas escolas com muitos alunos carenciados, e a situação sócio-económica não se vai alterar.

*( in Jornal de Educação, 10.12.14, Carolina Freitas – “ Ranking das escolas O que (não) dizem os números”).

 

Exit mobile version