A NAIRU EXPLICADA: PORQUE É QUE OS ECONOMISTAS NÃO PRETENDEM QUE O DESEMPREGO SE VENHA A SITUAR A UM NÍVEL DEMASIADO BAIXO – por MATTHEW YGLESIAS – I
joaompmachado
Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
A NAIRU explicada: porque é que os economistas não pretendem que o desemprego se venha a situar a um nível demasiado baixo
Matthew Yglesias, The NAIRU, explained: why economists don’t want unemployment to drop too low
Vox, 14 de Novembro de 2014
Um acrónimo pouco conhecido — NAIRU, que nada representa mas que no entanto é usado às vezes em alternância com a expressão taxa natural de desemprego — mas que exerce uma enorme influência por detrás dos cenários de concepção das políticas económicas que os governos impõem. A taxa NAIRU não pode directamente ser medida, mas os responsáveis políticos acreditam que esta é muito real. Mas as suas estimativas, assentes pura e simplesmente em conjecturas sobre se esta é 6 por cento ou 5 por cento ou 4 por cento, determinam se muita ou pouca gente obtêm um posto de trabalho e de quanto é que será a sua taxa de salário.
É um dos números mais importantes para compreender a economia e, no entanto, nem sequer é muito certo que exista, sequer.
1) O que é a NAIRU?
(Source: Congressional Budget Office, Bureau of Labor Statistics)
A NAIRU representa a taxa de desemprego que não acelera a inflação e a ideia é que a inflação acelerará se a taxa de desemprego cai abaixo do nível da taxa NAIRU. Em certo sentido, a ideia básica é já muito velha, mas esta formulação particular é devida a Milton Friedman.
Nada sobre a macroeconomia é incontroverso e a ideia de NAIRU e a sua utilização habitual na formulação de políticas económicas é contestada. Mas o conceito é uma ferramenta forte dos economistas do pensamento único, neoliberal, e em que o Congressional Budget Office publica os cálculos regulares do que pensam os seus economistas sobre o valor da NAIRU e sobre o que ela tem sido historicamente.
O gráfico acima compara a taxa de desemprego real à taxa NAIRU conforme foi calculada por CBO. A opinião de Friedman, em termos resumidos, era que quando a taxa de desemprego era mais alta que a NAIRU, o Federal Reserve poderia baixá-la através da utilização da política monetária como estimulo à economia e ao emprego. Mas quando a taxa de desemprego é ou está abaixo da NAIRU, o estímulo monetário criaria uma perigosa inflação . Somente as reformas “do lado da oferta ” para aumentar a eficiência estrutural da economia podem criar postos de trabalho. Nos círculos políticos, este ponto de vista deslocou largamente um anterior ponto de vista sobre desemprego e inflação centrado na Curva de Phillips (que veremos mais à frente, no ponto 3).
2) Assim é isto a economia da oferta?
Uma forma da economia da oferta. A expressão economia da oferta está associada fortemente a Ronald Reagan e às disputas da política económica dos anos 70 e do 80. A ideia era que a estagflação dos anos 70 tinha sido provocada por um aumento estrutural na taxa NAIRU. Mais do que combater o desemprego elevado com políticas do lado da procura como os estímulos monetários ou orçamentais, Reagan levaria a cabo políticas do lado da oferta e abaixaria a NAIRU. E como se pode ver no gráfico, a estimativa oficial de NAIRU caiu sem dúvida durante a administração de Reagan.
Dito isto, a taxa NAIRU caiu de 6,2 por cento para 5,9 por cento durante os oito anos em que a administração Reagan era relativamente pequena quando comparada com a queda na taxa actual de desemprego de 7,5 por cento a 5,4 por cento. A taxa de desemprego caiu substancialmente durante a Administração de Reagan, mas esta descida era na maior parte devida à política pelo lado de procura MAIS DO que devido a reformas pelo lado da economia da oferta.
Literalmente falando, a Curva de Phillips é um gráfico que o economista Williams Phillips fez, relacionando a taxa de inflação com a taxa de desemprego ao longo de diversos anos no Reino Unido. Paul Samuelson e Robert Solow fizeram um estudo equivalente para os Estados Unidos e onde o representação gráfica da relação taxa de inflação-taxa de desemprego corresponde claramente mais a uma curva que o estudo original de Phillips.
De acordo com seus críticos, os economistas e os responsáveis políticos nos anos 60 acreditaram que estas relações empíricas implicavam que os responsáveis políticos poderiam simplesmente escolher reduzir o desemprego mas ao preço de aumentarem a taxa de inflação sempre que o quisessem fazer. Os críticos consideraram que estas linhas de compromisso (tradeoff) apenas poderiam ser conseguidas enganando as pessoas e assim as relações só poderiam funcionar no muito a curto prazo. Os novos modelos económicos necessários a serem construídos e que assumiram as “expectativas racionais” pela parte da opinião pública e a superioridade imposta destes modelos significaram que a maneira como com a NAIRU se olhava o desemprego e a inflação substituiu o tradeoff que advinha da curva de Phillips. Esta mudança tornou-se conhecida como “a revolução das expectativas racionais”
James Forder argumenta que esta versão da revolução das expectativas racionais é um mito e que, na verdade, ninguém alguma vez terá acreditado nesta versão da Curva de Philips que alegadamente terá caído no ridículo. Similarmente, Robert Gordon discute que eram necessárias apenas fazer alterações menores aos actuais modelos macroeconómicos dos anos 60 para fazerem sentido nos anos 70.
4) Porque é que a taxa de desemprego actual é geralmente mais alta do que a taxa NAIRU?
Podemo-nos interrogar as pessoas da rua sobre quais foram as políticas dominantes aplicadas na América para a geração passada. Como se pode ver acima, desde 1980, os períodos de desemprego abaixo da NAIRU foram de mais fraca amplitude e de duração mais curta do que os períodos com as taxas de desemprego acima da taxa NAIRU. A grande excepção aqui é o final dos anos 90.
Não coincidentemente, o final dos anos 90 é a única vez em que durante todo este período nós vimos o crescimento sustentado nos salários e nos rendimentos das famílias medianas. A grande história da era da taxa NAIRU é que os responsáveis políticos fizeram um trabalho muito melhor em impedir a taxa de desemprego de assumir valores muito baixos (ou “demasiado baixos”) do que eles fizeram para impedir que esta assumisse valores demasiado altos. Isso é associado com o crescimento lento nos salários.