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A NAIRU EXPLICADA: PORQUE É QUE OS ECONOMISTAS NÃO PRETENDEM QUE O DESEMPREGO SE VENHA A SITUAR A UM NÍVEL DEMASIADO BAIXO – por MATTHEW YGLESIAS – II

Temaseconomia1

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

A NAIRU explicada: porque é que os economistas não pretendem que o desemprego se venha a situar a um nível demasiado baixo

 Matthew Yglesias, The NAIRU, explained: why economists don’t want unemployment to drop too low

Vox, 14 de Novembro de 2014

(conclusão)

5)  Suficiente teoria macro? Podemos nós assumir uma ruptura?

Fundamentalmente, a teoria de NAIRU aumentou de importância  devido aos problemas económicos dos anos 70, problemas bem-dramatizados na canção dos The Clash de 1977 “Career Opportunities” (“oportunidade de carreiras”:

Obrigado a theclashVEVO e ao youtube

6) Como é que a taxa  NAIRU é calculada?

Um grande problema com o papel fundamental da taxa  NAIRU no estabelecer de políticas é que não há nenhuma maneira de a poder observar ou de a poder determinar directamente. Em vez disso,  esta é pressuposta indirectamente através de certo número de métodos estatísticos. O Congressional Budget Office “calcula a taxa  NAIRU utilizando   relações históricas  entre as taxas de desemprego e as mudanças na  taxa de inflação.” Por outras palavras, eles olham para as mudanças verificadas no passado na taxa de inflação e nas taxas de desemprego para calcular como é que as futuras quedas[1]  futuras no desemprego influenciariam a inflação. A ambiguidade é introduzida pelo facto de que há diversos índices diferentes para a taxa de  inflação, e não é claro qual é o correcto para ser utilizado com esta finalidade.

Uma questão adicional é que é largamente consensual que a taxa  NAIRU pode mudar ao longo do tempo. Por exemplo, os  trabalhadores mais novos têm quase sempre uma taxa de desemprego mais elevada  do que os  trabalhadores mais velhos. Similarmente, os licenciados pelas Universidades têm uma taxa de mais baixo desemprego do que os trabalhadores de menores habilitações. Assim as mudanças na idade e nos perfis educacionais da população podem deslocar a NAIRU. Os artigos de investigação produzidos pelo  CBO mostraram que incluir tais factores pode levar a que se façam melhores estimativas sobre a taxa NAIRU.  Mas quanto mais factores se estiverem a incluir , mais as coisas levam a que se discorde da própria análise que está ser feita .

Os investigadores do Federal Reserve fazem  igualmente as  suas próprias estimativas sobre a  NAIRU utilizando métodos similares. Mas cada membro da Administração de Governadores do FED  e cada Presidente de banco regional do  Federal Reserve é livre de pensar o  que  entender. Agora, a maioria de actores de FED consideram fixa a NAIRU entre 5-6 por cento, de tal modo que é provável que o desacordo entre eles venha a ser  susceptível de começar a ter  um papel muito importante  nos debates de política económica porque o desemprego começa a cair dentro deste intervalo.

Os investigadores do  FED central em Washington estimam a NAIRU entre os 5,2 a 5,5 por cento.  Para trás, no final dos anos 90, muitos funcionários do FED  — incluindo a Presidente actual Janet Yellen — pensavam que a taxa de desemprego que se estava a ter era perigosamente baixa. O então Presidente,  Alan Greenspan,  discordou, tomando a posição um tanto subjectiva que a revolução da  Internet reduzia estruturalmente a NAIRU, o que levou a que ele tenha desempenhado  um papel chave no boom económico daquela época.

7)  Porque é que a taxa de  desemprego de  5.2% realmente provoca a aceleração da inflação ?

A teoria é que um período prolongado de baixo nível de  desemprego conduziria a uma espiral da relação  salário-preço. Vejamos a argumentação sobre o desencadear desta espiral:

  1. Porque os trabalhadores são escassos, as empresas precisam de começar a aumentar os salários dos trabalhadores  a fim de manter os  que tem e de poder ainda recrutar novos trabalhadores.

  1. Esses pagamentos de salários mais altos repercutem-se depois nos preços que passam a ser mais elevados.

  2. Os preços a subirem levam a que os trabalhadores  aumentem as suas exigências de salários mais elevados

  3. Porque os trabalhadores são escassos, as empresas precisam de satisfazer as suas exigências de salários mais elevados.

  4. Estes salários mais elevados conduzem a mais subidas de preços que, por seu lado, voltam a levar  a maiores subidas de salários.

  5. E, bom, assim sucessivamente até que a inflação fique fora de qualquer controlo.

Os responsáveis pela política económica levam esta história muito a sério.  Seguramente,  desde os anos 70 parecem tomá-la tão a sério, tão a sério que eles preferiam ter uma alta  taxa de desemprego,  uma taxa  “demasiado alta” em média do que ter uma taxa de desemprego “demasiado baixa” em média.

8.As espirais salários-preços acontecem realmente?

É muito duro dizê-lo. Porque um dos princípios da teoria sobre a NAIRU é que a NAIRU pode deslocar ao longo do tempo, e assim é impossível para todo o episódio histórico dado colocar a NAIRU em  ridículo. Nos anos 90, por exemplo, o desemprego caiu abaixo do nível da então-previsão da NAIRU que não acelera perigosamente a inflação. Os académicos  responderam geralmente argumentando  que isto mostra  que a NAIRU  desceu  nos anos 90 devido a um  conjunto de factores demográficos, de mudanças tecnológicas   e de maior abertura para as trocas. Quando a actual taxa de desemprego começou a disparar acima em 2008, as estimativas convencionais sobre a NAIRU começaram  igualmente a  aumentar  com a taxa de desemprego a subir devido à crise,  como uma explicação parcial para a razão pela qual não assistimos ao nível da economia a nenhuma elevada  deflação.

Naturalmente, uma outra interpretação seria a de que as previsões baseadas nas estimativas da NAIRU falham porque a teoria subjacente está ela errada . Desde 1987, o economista (e vice-presidente e, mais tarde, vice-presidente do  Federal Reserve) Alan Blinder argumentava que  “é possível que os Keynesianos keynesianos cedam muito rapidamente à  hipótese da taxa natural”  e sublinhem   que os problemas ligados às previsões da Curva de Phillips podem ser enfrentados  tendo em conta os choques ad hoc da oferta  —exactamente a mesma coisa que é necessário fazer para que a NAIRU funcione. Um texto posterior de  Robert Gordon, de modo similar, considera que o que é preciso apenas  adicionar os choques de preço do petróleo aos modelos keynesianos estilo 1960s para fazer as coisas funcionarem.

“Um meio termo seria argumentar que talvez  a NAIRU possa correctamente caracterizar  a economia da década de 1970. Naquela época, apesar de tudo, uma grande parte da força de trabalho americana era  representada pelos  sindicatos. Os contratos estabelecidos via sindicatos incluíam   frequentemente cláusulas que previam o aumento  automático dos salários em caso de  inflação. É fácil ver porque é que qualquer pessoa em particular gostaria de  ter essa cláusula no seu  contrato de trabalho. Mas também é fácil ver como é que a difusão da utilização  de tais cláusulas inadvertidamente poderia desencadear uma espiral. Se foi ou não este  o caso há  três ou quatro há décadas atrás, não é uma grande questão  para a economia americana de hoje, quando muito poucos trabalhadores têm tais contratos.

9) Se aqueles que duvidam da NAIRU  estão certos , o que é que  isso significa?

Bem, para começar, não significa que podemos eliminar por completo o desemprego . Não há dúvida que se a Reserva Federal apenas continuou a sua política de quantitative easing, é irrelevante  o valor que assume a taxa de desemprego, a inflação seria o resultado, seria a consequência dessa  política. O desemprego é lamentável, mas porque a procura de postos de trabalho a satisfazer os requisitos que lhes estão inerentes não podem acontecer instantaneamente, sempre vai ser necessário algum tempo. A grande questão é se é realmente verdade que estando o  desemprego em  4,5 por cento e mantê-lo a este nível  iria criar uma inflação fora de qualquer controlo.

Imagine que em vez de uma espiral salários-preços, vemos algo como isto: porque os trabalhadores são escassos, os empregadores precisam de aumentar o salário para manter e conservar os seus trabalhadores. Alguns desses custos adicionais são repercutidos sob a  forma de preços mais elevados. Mas em vez desses salários altos  desencadearem  uma espiral salários-preços, talvez a combinação de salários mais elevados e preços mais elevados induza mais pessoas  a procurar emprego. Todos — desde estudantes universitários a donas de sessenta e poucos anos estariam disponíveis  para trabalhar,   tornam-se um pouco mais inclinados a procurar um emprego formal. Permita-se aos  trabalhadores veteranos obterem uma  maior remuneração, mesmo as empresas são capazes de manter trabalhadores  de baixos salários devido ao facto de que a mão-de-obra disponível para trabalhar estaria a crescer

Isto é essencialmente o que vimos acontecer durante os anos de 1998 e 1999. Subiram  os salários, mas a força de trabalho também cresceu muito rapidamente, e a inflação permaneceu sob controle. A história de mainstream é que aconteceu assim porque a taxa NAIRU foi na verdade  inferior ao que as  pessoas anteriormente tinham pensado, e Alan Greenspan sabiamente viu-o.  Outra possibilidade é que a de que a teoria NAIRU está  simplesmente errada. De toda a maneira, Greenspan apontou para um nível de desemprego que era mais baixo do que as convencionais estimativas da NAIRU, e a sociedade beneficiou com isso.

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Ver o original em:

http://www.vox.com/2014/11/14/7027823/nairu-natural-rate-unemployment

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[1] Em itálico no original.

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Para ler a Parte I deste trabalho de Matthew Yglesias, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:

A NAIRU EXPLICADA: PORQUE É QUE OS ECONOMISTAS NÃO PRETENDEM QUE O DESEMPREGO SE VENHA A SITUAR A UM NÍVEL DEMASIADO BAIXO – por MATTHEW YGLESIAS – I

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