O Homem desforra-se, algumas vezes sem razão, mas muitas, mesmo muitas vezes, com carradas de razão, através da sátira e do riso, daqueles sem os quais não pode passar quando chegam os dias dos terríveis calafrios, a horas fatais das doenças prolongadas e de contínuo sofrimento.
A sátira contra os médicos, porventura inspirada na insensibilidade, arrogância e negligência de muitos clínicos, é tão antiga que se perde na noite dos tempos… O poeta latino Virgílio (71-19, a. C.) já dizia na «Eneida» (canto XII, verso 46): «Exuperat magis agrescitque medendo» (O mal piora e se agrava com o remédio). São inúmeros os epigramas que exprimem sátiras contra os médicos (e farmacêuticos), bem como contra o seu excessivo (e oneroso!) zelo que é, muita vez, encenação hipócrita de forma a convencer o doente a gastar mais dinheiro.
O poeta brasileiro Gregório de Matos Guerra (1633-1696) rimou entre outros, este epigrama curioso: «O doutor Saracura, / A curar começara; / Enquanto ele cura, / O doente não sara». O filósofo e moralista francês Montaigne (1533-1592), deve ter gasto bastantes cabedais na farmácia, pois nos seus Ensaios (livro III, capítulo XIII) escreve: «Je hay les remédes qui importunent plus que la maladie», (Odeio os remédios que importunam mais do que a doença). É possível que por causa disto tenha aparecido a conhecida história sob o título dourar a pílula, que apenas quer dizer apresentar com um aspecto agradável algo que é difícil de aceitar. Há muitos séculos, a farmacopeia usava esse engodo, embrulhando as pílulas em finíssimo e adocicado papel dourado, o que parece tornava possível engoli-las sem lhes sentir o amargo sabor.
Existe na Cultura francesa, o mais acintoso crítico de médicos e farmacêuticos: o dramaturgo e actor Jean Baptiste Poquelin Molière (1622-1673). Um personagem da peça de Molière «Médico à força», pergunta a outro de que doença faleceu um conhecido de ambos, o outro responde com esta síntese: «Morreu de quatro médicos e dois farmacêuticos.»!
No século XVIII, as hipóteses de tratamento e cura de várias doenças, compreendiam um conjunto de processos que eram verdadeiro e suplementar tormento para os enfermos. A crendice e a estupidez ainda se misturavam muitas vezes com a efectiva ciência médica, pelo que os resultados eram lamentáveis a diversos títulos.
Entre nós, portugueses, existe uma curiosa e paradigmática história sobre charlatanice “médica”. Imagine-se que durante o reinado de D. João III, certo curandeiro foi reconhecido e autorizado a praticar pelo monarca! Essa é pelo menos a convicção de António Tomás Pires (1850-1913) que, aliás, acrescenta terem sido expedidos alvarás no reinado de D. João IV que ainda reconheciam o poder de curar com palavras, referindo a propósito que no dia 13 de Outubro de 1654, foi passado documento ao soldado António Rodrigues, verificando-se que recebia 40$000 réis por ano pelas curas que havia feito e pela assistência que dava ao Exército, (in Origem de várias locuções, adágios, anexins, etc., edição póstuma de 1928).
De todos os nossos poetas, quem nunca acalentou ilusões sobre médicos, medicamentos e farmacêuticos foi o setubalense Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765-1805). Dele possuímos algumas composições que são de uma aparente simplicidade, mas cuja graça satírica denuncia o grande poeta da língua:
«Certo enfermo, homem sisudo,
Deixou por condescendência
Chamar um doutor, que tinha
Entre os mais a preferência.
Manda-lhe o fofo Esculápio
Que bote a língua de fora
E envia dez garatujas
À botica sem demora.
“Com isto (diz ao doente)
A sepultura lhe tapo.”
– “Aposto que não escapo.”».
Outra composição de Bocage, sobre prescrições médicas (vulgo receitas), é contundente e precisa:
«Pôs-se médico eminente
Em voz alta a receitar:
“Récipe…” (Diz) – De repente
Grita da cama o doente:
– “Basta, que maís é matar!”».
Num dos mais curiosos «caprichos” (desenhos) de Goya vê-se um homem no leito, pálido, exausto, talvez moribundo. Dos dois lados do catre, altivos e empertigados, dois asnos. O mais alto e soberbo, tomando o pulso ao doente, pergunta ao outro jumento: – «De que doença o faremos morrer?».
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João Semana, numa interpretação do pintor José Malhoa.
Tendo adoecido gravemente no cantão suíço (alemão) Waad, com a doença de que havia de falecer, o poeta alemão Rainer Maria von Rilke (1875-1926), nos últimos dias de vida recusava-se obstinadamente a receber a visita dos médicos. Por vezes ficava mesmo zangado e, nessas alturas, dizia com voz enérgica:
«– Quero morrer da minha própria doença e não da dos médicos!».
Tenho para mim que os médicos são semelhantes aos generais, chegam mesmo a desempenhar um papel muito parecido. Veja-se…
Todos nós sabemos por experiência própria ou pelo conhecimento da História, como são estreitos e torpes os cérebros da maioria dos generais e, no entanto, quando um país enfrenta o perigo de guerra, todos olham para o orgulhoso agaloado como para semi-deus salvador. Porém, se acontece a guerra e esta termina na derrota, desatam a vilipendiá-lo com as mais monstruosas caricaturas e as mais vergonhosas sátiras. Se porventura o país evita o perigo de guerra ou sai vitorioso por obra e graça de tal ou tal general, eis que este é glorificado como estátua de herói!
Assim acontece com os médicos, se por um acaso de resistência do doente, felicidade no acerto da medicamentação, cuidados de saúde prestados a tempo, o resultado é a recuperação da saúde no paciente, o médico é elevado à categoria de santo milagreiro; se o desastre é o saldo final, com a morte do doente, o médico é intitulado de criminoso, mau profissional, enfim, um monstro!
Seja como for, não se pode passar sem a sua prestação mais ou menos científica e escrupulosamente profissional sobre a nossa saúde, mesmo que seja às vezes assustador para o doente o célebre provérbio: «Hipócrates diz sim, mas Galeno diz não», apesar da expressão ser apenas um dito de espírito sobre as contraditórias opiniões dos médicos… – Só é pena que as mais das vezes, o orgulho corporativista da profissão e a ambição pelo dinheiro tenham vendado o olhar, a grande soma de médicos, sobre o amor ao próximo, espatifando neles o humanismo que era suposto possuírem desde o dia do Juramento de Hipócrates!
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– Juramento de Hipócrates: compromisso que assumem os médicos quando se formam, no sentido de exercer a profissão dedicando-se desveladamente aos seus doentes, e respeitando o código de ética profissional. Acredita-se que Hipócrates nasceu cerca de 460-377 a. C., na ilha de Cós, no mar Egeu, também pátria de Apeles. A sua fama estendeu-se até à Ásia e Artaxerxes II, rei da Pérsia (reinou de 404-358 a. C.), mandou-o chamar para combater uma epidemia que dizimava o exército persa. Hipócrates recusou os magníficos presentes com que o monarca o queria seduzir, e respondeu ao enviado do rei que a honra o inibia de socorrer os inimigos da sua pátria.

