Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
A quantitative easing de Draghi: uma saída da crise ou o último prego no caixão da Europa?
6. O BCE pega na bazuca: o BCE irá comprar para cima de um milhão de milhões de obrigações para salvar a zona euro
Matt O’Brien, The ECB takes out the bazooka: It’ll buy over 1 trillion euros of bonds to save Europe’s economy
The Washington Post/Wonkblog, 22 de Janeiro de 2015
O Presidente do BCE anuncia um plano para activar a economia da zona euro.
O Presidente do Banco Central Europeu Mario Draghi anunciou um programa de 19 meses para comprar euros cerca de 1,1 milhões de milhões de títulos da dívida pública e títulos privados que se irá iniciar em Março. (Reuters)
O Banco Central Europeu anunciou que vai começar a comprar títulos do governo com euros impressos para o efeito na sua mais recente tentativa de inverter a situação de recessão em todo o continente e a cair numa situação de estagnação económica.
Especificamente, o BCE vai comprar € 60 mil milhões em activos por mês — incluindo dívida publica, de Instituições europeias e de obrigações emitidas sobre o sector privado — e vai fazê-lo até pelo menos ao mês de Setembro de 2016, ou até que haja uma trajectória sustentada para a inflação a caminho do objectivo de referência na União Europeia de 2 por cento. Para se ter uma ideia de quão longe estamos deste objectivo, os preços estão na verdade em queda na Europa — um sinal altamente preocupante— e está-se com a inflação da zona euro actualmente em menos 0,2%. Não é pois de admirar que a economia da Europa ainda tenha uma taxa de 11,5% de desemprego e cresce tão lentamente que não é nada claro se ainda se já saiu do quadro da sua última recessão. Daí, € 1,1 milhão de milhões do BCE, no mínimo, prometidos para a economia.
Esse tipo de compromisso sem data de encerramento foi surpreendentemente forte para um Conselho do BCE que tem enfrentado uma histriónica oposição a qualquer tipo de compra de títulos governamentais pelo lado da Alemanha e de outros países europeus do Norte, que vêem isto como um pouco mais do que uma financiamento oculto feito aos países em crise que supostamente são uns países perdulários.
Para combater essa percepção, o BCE vai comprar títulos de cada país em proporção à sua dimensão económica e cada país assumirá a maioria das perdas se houver incumprimento. O próprio BCE participará neste processo e terá prejuízos somente se alguns dos títulos não-governamentais que compra, que são cerca de 20 por cento do total, forem de dívida pública de países que entrem em incumprimento .
Em teoria, isso realmente não é relevante, desde que este programa se torne numa saída uma vez que constituiria um problema, isso sim, se o euro já se estivesse a fragmentar , mas mesmo assim ainda poderia trazer alguns benefícios. Se os países em crise sentissem que estavam a cair numa situação extremamente aguda, de depressão em vez de apenas recessão, os investidores podem exigir maiores taxas de juros sobre a dívida, contrariando as acções desenvolvidas pelo BCE, para serem compensados pelo facto de que correriam o risco de terem que suportar perdas maiores para tentarem com que o governo não entre em incumprimento. Ainda assim, este é apenas um risco hipotético que é muito menos importante do que a realidade do empenhamento substancial do BCE.
Como parte disso, o BCE também introduziu condições ainda mais atraentes a taxas de juro bem mais baixas sobre os empréstimos a longo prazo que são oferecidos aos bancos para os tentar levar a começar a conceder mais empréstimos à economia. Ao todo, este pacote de empréstimos de baixo custo e de compra de títulos, ou quantitative easing, (QE), será bem maior do que o esperado o que fez cair o euro em mais de 1%, até $1,1475, contra o dólar.
Será que este programa vai funcionar? Bem, mal, é o que não pode fazer. A quantitative easing normalmente funciona, como o economista Tony Yates explica, em condições que não são as que existem na Europa actualmente. Este tipo de programa reduz os custos dos empréstimos, mas estes custos são já tão baixas como o poderiam ser em todo o continente. Este programa leva a que as emissões de papel para as grandes empresas fique mais barato mas a maioria dos empréstimos contraídos pelas empresas europeias são feitos para com os bancos e não tanto sobre a ida aos mercados de capitais. Isto assinala que o banco central não irá aumentar as taxas de juro durante muito tempo, uma vez que, está a comprar obrigações nos mercados mas ninguém na Europa espera, a Europa que está mergulhada numa depressão mais grave já do que a Grande Depressão dos anos 30, que com isso se possa fazer alguma coisa a curto prazo.
Isto também não serve de ajuda que o BCE esteja a comprar grande parte dos títulos dos países que não têm nenhuma necessidade disso, em vez de comprar mais daqueles que precisam que isso seja feito. Mas este é o acordo político que o BCE teve que fazer. Todavia, deveria levar as pessoas a vender as obrigações e por exemplo comprar nos mercados accionistas o que deveria, por sua vez, impulsionar os mercados e aumentar a despesa das pessoas que passavam a sentirem-se mais ricas, mas isto não é um grande efeito. O maior efeito será se se conseguissem convencer as pessoas de que a inflação irá na verdade começar a aumentar, o que poder levar a que pessoas e empresas começassem a aumentar a sua respectiva despesa e a investirem.
E, finalmente, QE tem de certa maneira um pouco a ver com um resgate, mas não da forma que a Alemanha tenha medo. Pense nisso como por exemplo: quando um país compra os seus próprios títulos com dinheiro que para o efeito se mandou imprimir, não precisa de pagar mais juros sobre essa dívida. Agora ainda assim é, mas isto é uma ficção contabilística. Isto significa estar a movimentar o dinheiro da mão direita para a mão esquerda e depois voltar a movimentá-lo para a sua direita. Isso é assim porque o governo paga ao banco central o juro que é devido sobre os títulos, mas o banco central recebe-o e volta a dar ao governo todo o dinheiro que acabou de receber.
Como o economista Paul De Grauwe sublinhou, isto elimina os pagamentos de juros de cada país, portanto, não é como se a Alemanha esteja a resgatar cada um dos outros países. Eles estão todos a livrarem-se e em igual medida. E isto é muito importante para um país como a Itália, que estaria a ter um excedente orçamental se não fosse os juros a pagar da sua dívida pública. Esses pagamentos, juntamente com a sua economia em forte recessão e com o seu PIB a cair, são a razão pela qual a carga da dívida tem estado de facto a aumentar, apesar de toda a sua austeridade. Nisto, a QE ajudará.
Em suma, isto pode ser demasiado pouco para tão demasiado tarde. Ou talvez seja demasiado tarde para tão demasiado pouco
But it might be too little too late. Or maybe too late too little. It’s hard to tell in Europe.
Matt O’Brien é um repórter do Wonkblog que se ocupa dos assuntos económicos. Anteriormente era um senior associate editor em The Atlantic.
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