A QUANTITATIVE EASING DE DRAGHI: UMA SAÍDA DA CRISE OU O ÚLTIMO PREGO A PREGAR NO CAIXÃO DA EUROPA? – A INTRODUÇÃO A UMA SÉRIE DE ARTIGOS, POR JÚLIO MARQUES MOTA

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

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A quantitative easing de Draghi:  uma saída da crise ou o último prego a pregar no caixão da Europa?

 A introdução a uma série de artigos, por Júlio Marques Mota

Poderíamos retomar o nosso texto apresentado dois depois do plano Draghi, a sua bazuca, a demonstra que se tratava verdadeiramente de poeira para os olhos, para enganar o povo grego e para satisfazer a ganância dos grandes operadores financeiros.  Hoje temos o grato prazer, preferíamos estar enganados acrescente-se,  de vos apresentar uma série de textos que no-lo mostram à exaustão, mostrando-nos também, a propósito da quantitative easing e dos seus prós e contras, que  é toda a Europa que está em jogo.  Querer tratar uma crise hoje já maior que a de 1930 com um mecanismo, mais um, para salvar a banca, oferecer-lhes aos mercados financeiros uma época de Natal bem especial, como diz Cassidy, ou um festim  como  assinala  um trader,  ex-director do programa Quantitative easing do FED, querer  continuar a política do to big to fail por outros meios, pela quantitative easing, com  a Europa quase está a morrer é na verdade, como diz Manuel Zarli num outro artigo, estar a martelar o último prego no caixão  da Europa, de uma Europa que já nem merece que se chore por ela, como afirma Nuti.

Talvez Nuti, talvez Zarli,  tenham  razão, talvez tenhamos em breve o funeral da Europa. Como nos diz Matt 0’Brien:

“Como eu defendi anteriormente,  o euro é o padrão-ouro com autoridade moral. E essa última parte é, na verdade,  o problema. Os europeus não pensam  que o euro representa a civilização, mas sobretudo  a defesa da mesma. É um monumento de papel para a paz e a prosperidade, o que torna esta última  impossível. Assim, os eurocratas que passaram as suas vidas a construírem-no  nunca foram capazes de o demolir , apesar do facto de que, como está actualmente construído, o euro está de pé entre eles e a retoma das suas economias.

Tal como a década de 1930, a Europa está prisioneira de um sistema de câmbio fixos [entre os seus Estados-membros]  que não os deixa  imprimir papel moeda, gastar ou desvalorizar a sua saída para poderem sair da crise. Mas, ao contrário de então, a Europa talvez nunca queira desistir. É de uma fidelidade sem falha que nem mesmo o bloco do padrão-ouro nunca poderia ter imaginado. E isso deixa o BCE como sendo a única esperança da Europa — o que significa que eles estão provavelmente condenados.”

Uma Europa que está numa crise bem mais profunda que a de 1933 como se mostra no gráfico abaixo :

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e que  continua a votar, com excepção da Grécia,  como o tem feito ao longo destes últimos anos alimentando-se das mentiras mais descaradas dos nossos políticos, essa Europa  não merece, se for esse o seu destino,  ser chorada.

Dir-me-ão, como me disseram Domenico Mario  Nuti ou José Almeida Serra, que Draghi terá feito o possível, mas o possível num contexto como este reduz-se praticamente a uma medida que vale pela sua espectacularidade  mas cujos efeitos na economia real, avizinha-se,  serão pouco mais que  nulos, sobretudo se comparados com as enormes necessidades na Europa. A mesma opinião parece ter Matt 0’Brien quando afirma:

“E isso deixa o BCE como sendo a única esperança da Europa — o que significa que eles estão provavelmente condenados”.

Draghi fez  o máximo que lhe é possível fazer, mas acreditando nisso, e eu acredito, significa de novo que todos nós, e ele próprio então,  estamos prisioneiros do modelo da construção do euro[1] e que assim é profundamente legítimo colocar a questão da própria saída.  Aliás, mesmo gente dos mercados que muito o estima, como Larry Fink, Presidente da BlackRock, Inc. (NYSE:BLK) considerou em Davos, ao perguntarem-lhe o que pensa da quantitative easing  de Draghi:  “ vimos que ao longo destes últimos anos têm tido confiança em Mario Draghi…o mercado não duvida de Mario. Ele tem sido capaz de ultrapassar isto…Esta política monetária vai manter o euro fraco. E acho que um euro enfraquecido  permitirá que as empresas europeias melhorem a sua situação no mercado. Assim, penso que as economias europeias ficarão marginalmente melhores este ano do que no ano passado.” Marginalmente melhores, sublinhe-se, quando estamos numa crise já mais profunda que a dos anos 30 e com um euro fraco a servir de muito pouco, a não ser à Alemanha, pois na maioria dos casos  os principais parceiros de cada país da zona euro são os seus parceiros da zona euro e então a sua taxa de câmbio está  constante.

Marginalmente melhor para o ano quando se está já  com muitos milhões de desempregados, com  milhões de desempregados sem direito já  a  nada, com muitos melhores já sem direito à saúde ou à educação condignamente. Como assinala Roger Bootle, jornalista do  The Telegraph: “somente quando os muitos  milhões dos desempregados de Europa e dos desapossados de tudo  encontrarem trabalho e a esperança  é que a crise estará ultrapassada.” E esta situação não se ultrapassará  a oferecer bónus aos mercados financeiros, como se irá fazer com a quantitative easing de Mario Draghi.

Coimbra, 29 de Janeiro de 2015

Júlio Marques Mota

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[1] Curiosamente Domenico Mario Nuti, já depois deste texto escrito,  envia-me um esclarecimento relativo à quantitative easing que eu admitia poder igualmente incidir sobre a aquisição de títulos no mercado primário. O final do seu esclarecimento é mesmo muito importante, a sublinhar que até o BCE é prisioneiro da arquitectura do euro ou do poder alemão se quisermos assim entender:

“Dear Julio,

I believe that even the Fed is unable to buy government bonds in the primary market, like the Bank of England and the Bank of Japan. But while the Fed can buy virtually unlimited amounts of government bonds in the secondary market, the ECB can do it (and even the Bundesbank did it in 1993 if I remember correctly), but is subject to repeated strong criticisms, majority voting in its Board of Directors, denunciations to the European Court of Justice and to the German Constitutional Court in Karlsruhe, and all sort of political interference.

One more thing: the ECB has a primary objective, an inflation target “below, but close to, 2%”, and when this is satisfied a secondary objective which is a high employment level. Mention of the second objective appears to have been removed from the ECB website, see (in Italian) http://vincesko.ilcannocchiale.it/post/2821720.html. ( O sublinhado é nosso)

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