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LIVRO & LIVROS – Livros desaparecidos – 6 – por Joaquim Palminha Silva

A infelicidade atinge o livro como nos atinge a nós!

Se para Karl Marx o homem é constituído essencialmente pelas relações de produção e de trabalho, de que é então essencialmente constituído o livro, para ser perseguido, assim, como um ser humano? Palavras escritas (impressas ou não), leitura e, depois, divulgação, emprestam existência real à missão do livro. Eis, pois, o papel reservado ao livro no decurso da história humana: – Difundi através de palavras, organizadas e comprimidas num pacote específico a que se convencionou chamar livro, ideias, saberes, experiências… A fim de podermos dispor de alguma “luz” que nos guie o pensamento e este, por sua vez, nos esclareça o caminho de vida que devemos adoptar. Por conseguinte, impedir a existência pacífica de um livro (manuscrito ou impresso) é praticamente o mesmo que atentar contra a vida de alguém.

            Amato Lusitano (1511-1568), nome porque ficou conhecido o judeu João Rodrigues de Castelo Branco, é considerado o mais notável médico português do século XVI. Este médico teve de abandonar Portugal, receoso das perseguições da Inquisição. Grande investigador na área da biologia e da farmacopeia (com o nome ligado a inúmeras descobertas), professor de Anatomia em Ferrara (Itália), não conseguiu evitar que lhe dessem sumiço a uma obra de ciência, comentando o famoso médico iraniano, Ibn Sina (980-1037), conhecido sob o nome de Avicena : «Comentário à quarta Fen do Lib. I de Avicena»… Quem sabe o que se perdeu?!

Jorge Ferreira de Vasconcelos (?-1585), cuja vida permanece um mistério em muitos aspectos, foi comediógrafo e autor de um romance de cavalaria, entre outras obras. Alguém deu sumiço a uma sua curiosa e instrutiva comédia, intitulada «Colóquio sobre Parvos», datada de 1556. Quem sabe o que nós perdemos sobre a identificação e caracterização desta “praga social” lusitana?!

Diogo do Couto (1542-1616) que foi cronista oficial e militar na Índia, escreveu importantes páginas sobre a história do império português no Oriente, sob o título Décadas da Ásia. O livro da X Década, só foi publicado em 1736, e a XI dizem que se perdeu, mas há investigador que afiança que o livro levou sumiço, obra de quem receava a verdade sobre a actividade indiana de muitos nobres. Amigo de Luís de Camões, que ajudou a regressar a Lisboa, quando o poeta, vindo da Índia, esmolava na ilha de Moçambique, Diogo do Couto era funcionário honrado e incorruptível, pelo que as suas Décadas “haviam” de ser mutiladas, desaparecer ou ser impressas tardiamente…

Mas entre tantos livros desaparecidos, ainda hoje não se percebe a razão porque se “evaporou” a obra do matemático Pedro Nunes (1502-1578), intitulada «Tratado da Proporção do Livro V de Euclides». Terá acontecido que a alguém interessava a transformação do trabalho em jogo sem regras, e sem justa proporção do valor da riqueza assim alcançada?

Um presbítero secular, professor de retórica e poética, pregador e sócio da Academia Real das Ciências, o Pe. António das Neves Pereira (falecido em 1818), deixou um valioso contributo para o Dicionário, a publicar pela mesma Academia. Além deste seu contributo, deixou um manuscrito intitulado «Dicionário das Palavras Que do Século XVI para cá se Têm Aportuguesado […]». Dezoito anos (1836) após a morte do autor, ambas as obras “pereceram”, carbonizadas no incêndio que consumiu o Tesouro Público, onde haviam sido guardadas (vá lá saber-se porquê!). Curiosidade sem importância? Talvez… Mas o facto é que há em Portugal “forças persecutórias” da obra manuscrita, do livro que, em certas circunstâncias e se debruçado sobre determinados temas, fazem com que os “maléficos” não olhem a meios.

                                                                                                                 (continua)

 

 

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